Azulejos portugueses nos edifícios do Norte e Nordeste do Brasil
Algumas paixões em revestimento que tenho são os azulejos, os mosaicos e os ladrilhos hidráulicos. Por que não uma matéria sobre azulejos no Brasil? Ei-la, mas é somente algumas considerações! Impossível falar da arte da azulejaria em tão poucas palavras…. mas vamos aos poucos… quem sabe um dia teremos nesse blog muitas informações e fotos sobre esse assunto. Abraços a todos e um feliz 2011, Cecilia (e para quem não viu e quer ver, aqui algumas imagens da exposição sobre azulejos portugueses que teve em São Paulo, em 2008)

Azulejo da fonte da Praça El-Hedine, em Mekhnes, Marrocos
Foto de Fabos – wikipedia
O azulejo tem origem árabe, e foi utilizado por longos séculos somente como uma peça decorativa. Com motivos estilizados e florais, a arquitetura mourisca utilizou em larga escala o mosaico de cerâmica ou mosaico de azulejos. No século 16 o azulejo chegou na península ibérica, e a primeira indústria européia de azulejos surgiu nesse período em Sevilha, Espanha.
A partir do sul da Espanha chegaram em Portugal, onde a técnica se difundiu, e onde surgiram várias fábricas de azulejo.
O uso em Portugal da cerâmica esmaltada na forma de azulejos, inicialmente decorando palácios, igrejas, monastérios, etc, e posteriormente, em residências e comércio, — internamente e depois nas fachadas —, foi decorrente da influência da cultura oriental que os empregava desde há muito. Levados pelos Mouros chegaram primeiro à Península Ibérica em meados do século 12 e posteriormente tiveram o uso disseminado em toda a Europa. Portugal recebia produtos cerâmicos esmaltados feitos na Espanha, Itália e Holanda. Posteriormente, no final do século 16, já confeccionava azulejos em suas próprias olarias.
Até o século 17 os azulejos produzidos em Portugal tinham influência árabe, e é a partir desse século, com a criação da Real Junta de Comércio, que os azulejos portugueses começam a se diferenciar dos padrões árabes.
São criados então outros padrões de azulejos, como os “tapetes”, junção de azulejos de padrão e cercaduras ou barras que fecham o motivo retangular,. As cores utilizadas são o branco, o amarelo, o azul e o verde. O azulejo de padrão, é constituído de no mínimo 4 azulejos, que vão se repetindo, formando uma composição normalmente de folhas estilizadas, de forma simétrica. Também surgiam desenhos isolados, através de técnica conhecida como majólica (a cerâmica é esmaltada primeiro, depois sobre o esmalte, numa nova queima, é adicionado o motivo), que vão apresentar painéis figurativos, muito comuns em igrejas e mosteiros brasileiros. No século 19 os azulejos portugueses começam a representar motivos pastoris, tardo-românicos, e são quase sempre composições em azul e branco.

Azulejo padrão – 1565
proveniente da Quinta da Bacalhoa – foto Museu Nacional do Azulejo

Fuga para o Egito – 1730
técnica majolica – figurativo – foto Museu Nacional do Azulejo
Foi somente no século 19 que o uso do azulejo como revestimento de fachadas começou a se espalhar em Portugal, mas um pouco antes disso eles eram usados no interior das casas e das igrejas. Mas antes disso, o uso de azulejos nas fachadas das residências, já era comum em cidades no Norte do Brasil, como São Luiz (Maranhão) e Belém (Pará), o que mostra que este uso iniciou-se primeiro entre nós, como forma de enriquecer as fachadas dos ricos comerciantes, ao mesmo tempo que protegia as paredes das fortes chuvas e da umidade, além de isolar o interior do calor do sol, que aquecia as paredes.
Dizem alguns historiadores que portugueses que regressavam à Portugal depois de morarem no Brasil, levaram para lá este costume, e foi então que o uso do azulejo nas fachadas se espalhou por Portugal, favorecendo os fabricantes portugueses, que começaram a produzir um número maior de azulejos, para exportação e consumo interno.
Lisboa, Porto e Coimbra foram as cidades portuguesas responsáveis pela maior parte da produção de cerâmica no século 18. Sacavém, Viúva Lamego, Lusitânia, Fábrica da Roseira, Massarelos, Devesas, Miragaia, Carvalhinho e Caldas foram algumas das fábricas que prosperam com a produção de azulejos de revestimento de fachadas. (citado aqui)
No Brasil o uso do azulejo português é uma constante em cidades coloniais do litoral, em igrejas, mosteiros e fachadas de construções residenciais e comerciais.
Na Bahia, a Igreja de São Francisco em Salvador, é um dos locais onde se pode apreciar o azulejo português, na técnica majólica.

Painel de azulejos do Convento de São Francisco – Salvador – Bahia
foto de Renato Wandeck

detalhes do painel de azulejos do Convento de São Francisco – Salvador – Bahia
fotos de Renato Wandeck
Azulejos com essa técnica, em igrejas e conventos, também podem ser encontrados na cidade do Rio de Janeiro, na Paraíba, no Recife e em Olinda em Pernambuco. Existem muitos painéis, em grande formato, no Estado de Pernambuco em inúmeras Igrejas no Recife e Olinda, e na cidade de Igarassu. Na cidade do Rio de Janeiro, o maior exemplo deste tipo de trabalho, acha-se na Igreja Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Veja alguns exemplos no Pernambuco.

Convento de São Francisco – Olinda – 2009 – Foto de Cecilia Lucchese

Aqui um exemplo de azulejo de padrão
Igreja de São Francisco – Olinda – 2009 – Foto de Cecilia Lucchese

Esse também um azulejo de padrão
Convento de São Francisco – Olinda – 2009 – foto de Cecilia Lucchese
Mas o uso de azulejos nas fachadas das residenciais e casas comerciais, ainda que possam ser encontrados em outros lugares, são característicos do Pará e do Maranhão, e numa época em que os atuais estados eram uma única província, o Grão-Pará e Maranhão, não é de estranhar que encontremos azulejos idênticos em locais tão distantes. Podemos ver nessas fotos um exemplo de azulejo de padrão, que aparece em Santarém (PA) e em São Luiz (MA).
Em Belém e Santarém o uso do azulejo tornou-se possível pelo dinheiro da borracha, no século 19, e a maioria dos azulejos são portugueses, de produção industrial tipo tapete ou de padrão, e revestem as edificações de inspiração neoclássica.

Esta casa comercial fica na área do porto de Belém
2008 – foto de Cecilia Lucchese

Essa é uma casa comercial em Santarém – 2009 – foto de Cecília Lucchese

casa residencial em Santarém – 2009 – foto de Cecilia Lucchese

Detalhe do azulejo de padrão
Santarém – 2009 – foto de Cecilia Lucchese – vejam agora a foto abaixo

melhor conservado, esse azulejo no interior de uma igreja em São Luiz do Maranhão, é do mesmo tipo do de Santarém
2010 – foto de Antônio Carlos Costa
No Maranhão foi o dinheiro da cultura do algodão que permitiu a importação do azulejo e seu uso em larga escala, que teve início por volta de 1840. Várias são as técnicas utilizadas, como a estampilha, a decalcomania, padrões em relevo e majólica.
Parte do patrimônio azulejar de São Luís encontra-se em acentuado estado de degradação, apesar de ter sido incluído, em 1997, pela UNESCO, na “Lista de Patrimônio Mundial”, e ser considerado referência nacional na azulejaria, principalmente na de fachada. (o mesmo estado de degradação pode ser observado em Belém e Santarém)
Observamos que há poucos painéis em São Luís dos tipos que notabilizaram a azulejaria de Portugal. Estes têm a predominância da cor azul em fundo branco, e abordam temas religiosos, históricos, patrióticos, mitológicos e paisagens. São usados, principalmente, na decoração de Igrejas — claustros, sacristias, altares, naves, paredes laterais — e em edifícios públicos e residências particulares.
Em São Luís existem vários imóveis do período colonial e imperial, com azulejos de fachada oriundos principalmente de Portugal. No entanto, há exemplares de muitos outros países como Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha, Espanha e Holanda. Mas a maioria dos azulejos de fachada não têm a indicação do país de origem.

Casas comerciais no centro histórico de São Luiz, com azulejos nas fachadas – Rua Portugal
2010 – foto de Antônio Carlos Costa

outra vista dos casarões de São Luiz na Rua Portugal
2010 – foto de Antônio Carlos Costa

azulejos revestindo parede interna de uma pousada na Rua Afonso Pena
2010 – foto de Antônio Carlos Costa

detalhe do azulejo no interior da construção – técnica de relevo
2010 – foto de Antônio Carlos Costa

fachada sobrado em São Luiz – interessante exemplar residencial com sótão
2010 – foto de Antônio Carlos Costa

detalhe da fachada – azulejo de padrão – motivo em decalque
2010 – foto de Antônio Carlos Costa

outro azulejo de padrão de fachada – motivo em decalque
2010 – foto de Antônio Carlos Costa
E para terminar vejam o detalhe desse beiral, captado pela lente de Antônio Carlos Costa:

São Luiz – 2010 – foto de AC Costa
Para saber mais:
Sobre azulejos: Wikipédia – clique aqui
Sobre azulejos em Portugal:
Museu Nacional do Azulejo – Lisboa – Portugal
Os “Brasileiros” e a azulejaria exterior portuense do século XIX
sobre azulejos no Brasil:
Arquitetura e Arte Decorativa do Azulejo no Brasil
Azulejaria Portuguesa em Belém: História, Estética e Significado
São Luiz – Cidade dos Azulejos
mais fotos de Antônio Carlos Costa sobre o Maranhão (e outros lugares)
04/02/2011 às 05:28
Muito bacana essa materia sobre ajulejos, eu tb adoro!
Esses em revelo são lindos…
Pena que os predios do Comércio em Salvador revestidos de ajulejos na fachada estão se desmoronando…
Parabéns, muito bom!
Ester
29/07/2011 às 14:13
Parabéns pela matéria, você conseguiu mostrar a essência do uso dos azulejos em igrejas e principalmente nos casarões coloniais portugueses.
Sou de São Luís do Maranhão e aqui há muitos azulejos no centro históricos, mas nunca havia prestado atenção pela perspectiva aqui mostrada.
11/03/2012 às 23:02
Amei sua matéria. Estou fazendo uma pesquisa sobre azulejos e ela elucidou bastante!
20/05/2012 às 21:49
O desenho dos azulejos mostram a influência moura em Portugal. Lamento que não encontramos replicas deles no Brasil, principalmente em relevo. Se alguém se aventurasse na fabricação deles em nosso pais, certamente ficaria muitissimo rico. Não há que não goste.