martinelli

De noite eu rondo a cidade…


Em 1651, Henrique da Cunha Gago e Cristóvão da Cunha solicitaram aos poderes públicos um terreno no que foram atendidos. Na terra ganha havia uma nascente que alimentava dois córregos. Um deles era o Yacuba, também conhecido por muito tempo pelo nome de Guaçu.

Ali perto desembocava uma rua, que até hoje é denominada rua Brigadeiro Tobias, cujo nome veio do fato de cerca de haver a cerca de uns 60 metros um velho e enorme casarão de muitas janelas que pertenceu ao Brigadeiro.

O córrego Yacuba, formado da nascente da Ladeira Santa Ifigênia, ia desaguar no córrego Anhangabaú, ligando-se ao curso d’água que saía do Tanque do Zuniga, atual Largo Paissandú. Aquela abertura larga, que hoje é a Praça Antonio Prado, era conhecida como Largo do Rosário, porque ali é que estava antes a antiga Igreja do Rosário que depois acabou sendo transferida para o Largo Paissandú, onde hoje ainda se encontra.

Os trechos de rua nesse baixio (o fim da rua Santa Ifigênia, o resto da Rua Brigadeiro Tobias e depois o Largo do Correio que se misturava com o Beco dos Sapos, por cima do Anhangabaú) foram ligados, e ali sobre o Ribeirão Yacuda foi aberta uma rua que é hoje a Avenida São João. (trechos publicados em SampaArt website)

Ladeira e Avenida São João em 1887

Foto: Militão de Lima

O Largo do Rosário, logo no começo da Avenida São João, no início do século era conhecido como Coração da Cidade. Com o tempo, a região passou a receber o comércio de elite como as confeitarias Brasserie e a de Castelões. (Benedito Lima de Toledo – livro São Paulo:três cidades em um século) A Avenida São João era um dos principais centros da cidade, famosa por seus cafés, teatros e lojas, que vendiam produtos afinados com a moda e os hábitos europeus, tais como bengalas, sapatos, guarda-chuvas, além de tabacarias, chapelarias, joalherias, camisarias e barbearias. Em 1920 foi iniciado o prédio público mais importante, o de Correio e Telégrafos. Com o alargamento e os novos prédios, a avenida tornou-se um eixo de prestígio, que perdurou até a implantação do sistema viário da ligação leste-oeste em direção à Zona Leste, quando seu trecho inicial perdeu importância como eixo viário. A São João foi salva pela própria decadência e por já estar pronta, com os maciços edificados há muito tempo. (Michel Todel Gorski no livro 10 roteiros históricos a pé em São Paulo)

Avenida São João depois do alargamento – 1916

Foto: Militão de Lima

Av São João – 1932

No final dos anos 40 a Avenida se tornou o local de bares onde se encontrava a boemia da cidade, como o Bar Brahma, e foi musa para Paulo Vanzolini que fez a música que intitula esse blog… de noite eu rondo a ciidade a lhe procurar, sem encontrar, no meio de olhares espio em todos os bares, você não está….

“Eu fiz Ronda quando era estudante. Eu pertencia a um grupo de estudantes atirados na boêmia, noite na rua, bar, prostituição e todas essas coisas. Havia aquela tradição acadêmica de poeta maldito, poeta da noite. Eu então inventei uma história de uma mulher da noite e fiz. Agora, a gravação é que foi problema porque eu nunca fiz músicas naquele tempo pensando em gravar. Aliás, nunca fiz música pensando em gravar mesmo, sempre fiz pra fazer. Mas Inezita Barroso sabia a música e nós éramos muito amigos. Ela foi pro Rio com o marido pra gravar a primeira gravação dela em 78 rotações, Moda da Pinga, e minha mulher e eu fomos juntos e fomos para o estúdio. Quando chegou no estúdio, teve um problema: Inezita não sabia que disco tem lado B. Então precisava de uma música pra gravar nas costas da Moda da Pinga. Acontece que ela sabia Ronda e eu estava ali pra dar autorização. Então… Pra mim o mais engraçado não é isso, eu achei naquela hora muito natural os músicos na hora já saírem acompanhando, teve uma discussão lá entre eles e eu digo: “Vocês pegam o que quiserem e o que sobrar fica pra mim”. Os músicos eram [José] Menezes, Garoto, Bola Sete, Chiquinho do Acordeom e Abel de Oliveira na clarineta. A Inezita cantava a melodia na orelha do Abel e saía o solo de clarineta. Foi gravado numa passada só, um microfone só pra todo mundo. Como dizem, em matéria de música, eu sou mesmo um cavalo na missa sem latir, porque eu via aquelas feras todas. Depois cheguei em São Paulo e tinha um tal de Bola Sete, um pretinho assim, meu Deus do céu. Garoto até foi muito meu amigo depois disso.” (Paulo Vanzolini)

Nos anos 1970  Caetano Veloso tentou entendê-la sem conseguir…

alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga com a Avenida São João, é que quando passei por aqui eu nada entendi…

Hoje a avenida acolhe várias lojas de móveis usados em prédios deteriorados.

A Avenida São João merece um programa especial para a vitalização e valorização de seu patrimônio, mas que preserve seus pontos de encontro mais importantes, como a Galeria do Rock, o Edíficio Olido (sede da Secretaria Municipal de Cultura), o Ponto Chic, o Rei do Mate (que foi ali que começou a rede de lojas), o Hotel Central, e outros que vocês me ajudem a lembrar.

Avenida São João 1970

Avenida São João 2007 do mesmo ângulo

As duas fotos são de Gilberto Calixto Rios

Avenida São João

Foto de Alexandre Chang postada no Flickr

Avenida São João

Foto de I’m a cat postada no Flickr

Edifício Martinelli (à direita) e Banespa (ao fundo)

Foto de Gi Roney no Flickr

A Galeria do Rock – Foto publicada no O Retratista website

Galeria Olido antigo Cine Olido

Interior do Bar Brahma

7 pensamentos sobre “De noite eu rondo a cidade…

  1. Boa Tarde! Eu sou Gilberto Calixto Rios, e vi duas fotos de minha autoria aqui publicadas (uma de 1970 e outra atual). Agradeço a referência à autoria, no rodapé das fotos, mas peço uma retificação de meu sobrenome: no lugar de “Reis”, é “Rios”. Caso queiram entrar em contato: gibarios@gmail.com
    Abraços!

  2. As fotos que publico estão com os créditos, Regina. Tente entrar em contato com o dono da foto para fazer seu pedido.

  3. Bom dia, Gostaria de saber como consigo a foto do interior Bar Brahma em alta resolução. Gostaria de fazer um painel no fundo de um bar no interior da empresa onde trabalho.
    Parabéns pelas fotos! Adoro o centro antigo de São Paulo.

  4. Não sei se é relevante … Mas ficava na Av. São João, 111 a loja onde foi comprada por Giuseppe Pistone a mala para esconder o corpo de sua esposa Maria Fea.
    Aparentemente ele calculou mal o tamanho do corpo, então resolveu esquartejá-la.

    Henrique Costa

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