A sustentabilidade urbana e a indústria da construção civil


Em Novembro de 2007 foi realizado em Florianópolis o painel Ecopólis da Eco Power Conference, com a presença de prefeitos, estudiosos, construtores e sociedade civil. A revista Área publicou uma matéria sobre o painel, da qual estamos publicando alguns trechos.

UTILIZAR TRANSPORTE PÚBLICO, ampliar a coleta seletiva de lixo, morar próximo ao local de trabalho, criar espaços multiuso para a população, revitalizar as áreas centrais das regiões metropolitanas e restaurar o patrimônio histórico. Essas foram as cinco medidas essenciais indicadas pelo arquiteto Jaime Lerner, mediador do painel Ecopólis, para que uma cidade evolua de maneira sustentável. Ex-governador do Paraná e prefeito de Curitiba por três gestões, ele admite que não se bastam simples mudanças. “A sustentabilidade nas cidades tem que tomar forma de equação: mais economia e menos desperdício”, resumiu. A preocupação com as mudanças climáticas e com a preservação dos recursos naturais e a construção dos chamados ‘prédios verdes’ não são suficientes. O futuro das cidades passa por um planejamento urbano eficiente e pelo engajamento de governantes, industriais, construtores, arquitetos e engenheiros na construção de uma autêntica ecopólis.

“O tempo de ação é muito mais curto do que imaginamos. Esta é uma crise enorme, de soluções difíceis, que envolvem grandes decisões. A humanidade está enfrentando um desafio como nunca”, falou o ex-deputado federal Fábio Feldman, autor da Lei da Mata Atlântica, a uma platéia lotada, formada por políticos, empresários, arquitetos e outros profissionais da construção civil. Ex-secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Feldman considera ingenuidade pensar que as práticas apontadas na Agenda 21, elaborada pela Organização das Nações Unidas (ONU) durante a Eco-92, seriam suficientes. “As reuniões da ONU não são suficientes para mudar o mundo”, avalia. E lançou um desafio: “se conseguirmos mudar o modelo mental da construção civil, desde o projeto, podemos ter o mesmo impacto do Protocolo de Kyoto”.
É preciso, entretanto, investir também em justiça social, na opinião do engenheiro civil Vanderley John, que realizou seu pós-douturado em Engenharia no Royal Institute of Technology da Suécia. “Com a tecnologia e o padrão de consumo que temos hoje, acabaremos com o planeta. Impossível arrumar a questão ambiental sem arrumar a social. É preciso reinventar o desenvolvimento”, alertou John, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Classificando a indústria da construção civil como “tecnologicamente conservadora”, defendeu, enfaticamente, um maior investimento do setor em pesquisa. Para ele, “excluído o desmatamento na Amazônia, a indústria cimenteira é responsável por 12% das emissões de gás carbônico no Brasil”, exemplificou, sugerindo a utilização de cimentos do tipo CP III e CP IV nas obras, por emitirem menos dióxido de carbono, que é responsável por 60% do aquecimento global. John destaca que, neste processo de transformação, toda a cadeia produtiva deve dedicar-se a reduzir o consumo de materiais, o desperdício, as perdas e melhorar a qualidade. “Talvez nossas prioridades em termos de construção sejam aumentar a durabilidade dos materiais, reduzir a área construída per capita, usar produtos cujo processo de fabricação seja menos poluente, preferir madeiras certificadas”, elencou. Aumentar a eficiência energética e utilizar aquecedores solar foram outras sugestões apontadas pelo professor para as “ilhas de calor”, onde os prédios respondem por quase 50% da energia total consumida nas cidades.

Foram citados alguns exemplos bem sucedidos:

Em sua palestra, o engenheiro civil e empresário paulista Luiz Fernando Lucho do Valle, um dos pioneiros na construção de condomínios sustentáveis no Brasil, demonstrou, em números, que os benefícios da chamada “ecologia urbana” vão além da preservação dos recursos naturais e também podem ser percebidos em planilhas financeiras dos empreendedores da construção civil e no bolso dos moradores. “Com as medidas que adotamos, poupamos R$ 162 mil por obra e proporcionamos uma economia de R$ 4.804,00 por ano a cada apartamento de nossos condomínios de 100 unidades”, exemplificou o presidente da Ecoesfera Empreendimentos Sustentáveis, comprovando que essas soluções não precisam, necessariamente, exigir um maior investimento.

As decisões sustentáveis são tomadas ainda no canteiro de obras. As construções são feitas com alvenaria estrutural, levando madeira apenas na fase de acabamento, o que representa uma preservação de 50 árvores por torre e uma economia de R$ 50 mil ao construtor. Já no canteiro de obras, toda a água é reutilizada, poupando 600 mil litros e R$ 4,8 mil por empreendimento. A instalação de sensores de presença, lâmpadas economizadoras e o uso de equipamentos com motores eficientes garantem uma redução de 10% no consumo de energia elétrica – uma economia de R$ 5,9 mil. No caso do entulho, outro bom exemplo, com a separação e a venda de todo o lixo produzido: “retiramos 326 caçambas a menos”, conta.

Nas unidades habitacionais, a incorporadora aplica 15 diferenciais ecológicos, como telhado verde, captação da água da chuva, chuveiros à gás e tubulação específica para o descarte de óleo de cozinha, posteriormente comercializado pelo condomínio.

O impacto das medidas adotadas pela Ecoesfera, considerando um prédio de 100 unidades:

Energia: economia de 25.514 kw/ano

Água: economia de 14.984.000 l/ano

2,4 bilhões de litros de água livres de óleo de cozinha

240 árvores preservadas/ano

Economia do apartamento: R$ 4.804/ano

Economia nas contas condominiais: R$ 105.206,00/ano (cerca de 25%)

Ganho global: R$ 519.446,00/ano.

O texto integral da matéria está publicado no n.º 3 da Revista, de Janeiro de 2008

Leia mais sobre a Eco Power Conference em:

Planeta Sustentável

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