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Debatendo a cidade de São Paulo que queremos


O programa Roda Viva da TV Cultura disponibilizou na Internet uma série de entrevistas que realizou através dos anos.
Com Jorge Wilheim, arquiteto e urbanista paulista, a entrevista foi feita em 25 de Janeiro de 1999, que no dia do aniversário da cidade fala sobre os problemas e as soluções para São Paulo.

Wilheim tem vários livros escritos com propostas para a cidade de São Paulo. O livro a “Obra Pública de Jorge Wilheim” traz uma série de propostas do arquiteto, e uma me encanta particularmente a proposta para a Rua Augusta da década de 70. As propostas sempre mostram o arquiteto preocupado com a São Paulo na escala humana, privilegiar o uso da cidade, o estabelecimento de lugares, ao invés do privilégio da metrópole da passagem, do trânsito enfurecido, todos querendo ir para um outro lugar e só isso importa.

Veja uns desenhos da proposta para a Rua Augusta. Você conseguem imaginar a Rua Augusta sem carros, lugar de encontro de jovens de todos os cantos da metrópole. Hoje essa proposta me parece extremamente up to date.

rua-augusta-1proposta para a Rua Augusta – SP – croqui de Jorge Wilheim

rua-augusta-2outro croqui de Jorge Wilheim para a Rua Augusta – SP

Veja o que Wilheim fala do espaço público nessa entrevista:

Existem cidades que são melhores administradas do que São Paulo. Existem cidades onde o planejamento teve alguma função e está tendo alguma função, e que as coisas têm certa consistência. O plano que é feito hoje em dia, ou que tivesse que ser feito é conjunto de estratégias e acredito que, no caso de São Paulo, inclusive, pontuais, pontuais. Eu acho que São Paulo necessita da reconquista do espaço público. Necessita de uma concentração de preocupações, de desenhos e de obras nos espaços públicos. Nós só pensamos em espaço privado, nós só codificamos o espaço privado e abandonamos o espaço público. No momento em que conseguimos criar espaços públicos em que a população se identifique com esses espaços e os transforme em seus lugares, portanto, emprestando sua afetividade ao espaço que lhe é oferecido, bem desenhado, bem cuidado, nós começaremos a gerar uma população que ama o espaço, a coisa física da cidade e o fato de ser paulistano. E não apenas as oportunidades que a situação sempre lhe ofereceu, né? Então, eu acho que existe o que fazer, existe o que fazer e existem projetos que estão arquivados. Até muitos projetos novos que podem ser feitos. Então, eu sou otimista, quando sou otimista, apesar do desespero de ver o espaço público no estado em que hoje se encontra, né? Cercado de tal forma, que eu não sei mais quem está cercando quem, né? Se as pessoas presas são os que estão dentro dos condomínios fechados ou se são aqueles que estão fora, que não podem entrar. Então, estão gerando um espaço totalmente segregado a ser rompido, a ser reprojetado, a ser, inclusive, tornado mais bonito. Então, essas são coisas que podem ser feitas e que despertam na cidadania um amor que, por sua vez, cobra das autoridades a manutenção, a preservação, e novos projetos.

Wilheim estava na Prefeitura quando foi feito o atual Plano Diretor de São Paulo, que em sua elaboração foi discutido em várias audiências públicas na cidade e durante sua tramitação na Câmara. No Programa Roda Viva Wilheim fala da falta de um Plano Diretor para  São Paulo. Estávamos no final da gestão de Celso Pitta, a cidade vinha arrasada depois de uma gestão de Maluf e outra do Pitta, e não havia planejamento algum. Mas Wilheim fala de questões que ainda são válidas hoje para a cidade, porque se avançou desde aquela época, mas se avançou pouco. Alguns trechos interessantes:

Veja, muitas vezes… eu estava até vendo em documentos antigos, em livros, até em coisa que eu escrevi, e tem 15 anos, tem 20 anos, e todos nós tivemos a oportunidade de reler coisas que escrevemos, coisas que às vezes são até atuais, soluções que foram dadas há vinte anos e que nada aconteceu, e que no fundo poderiam ser feitas agora, e até que tem uma certa atualidade. No caso do transporte público, isso é comum. Por exemplo, dizer que a garantia de pontualidade de um ônibus é dada, em primeiro lugar, porque ele circula sem concorrência em faixa própria, meus Deus, esta idéia deve ter 50 anos na Inglaterra. E aqui, certamente tem 20, 30 anos. São Paulo foi até pioneira nisso, estabeleceu uma calha, uma linha na Mooca que estava em faixa própria. E depois foi abandonada, não teve continuidade. Então, às vezes, as idéias até existem, como por exemplo na parte habitacional. Formas de garantir e criar cooperativas, formas e mecanismos e até experiências que já existem, de criar a chamada “cesta da construção”, né? Não é propriamente uma cesta, porque não cabe numa cesta, mas é um conjunto de materiais de construção para cooperativas de auto construtores, para associações de auto construtores. Essas são idéias que não foram levadas à frente, mas que ainda hoje, em certas circunstâncias, valeria a pena levá-las para experimentá-las. Se elas não vão para frente ou se elas não forem experimentadas, é falta de vontade política de fazê-las, às vezes até falta de espírito público, né? E falta, portanto, de assumir a cidade, como disse o professor, como um conjunto de pessoas e não de um conjunto de coisas. É claro que as pessoas necessitam das coisas, no entanto. E não podemos pensar nas pessoas desligadas do ambiente físico onde estão as coisas…Veja, muitas vezes… eu estava até vendo em documentos antigos, em livros, até em coisa que eu escrevi, e tem 15 anos, tem 20 anos, e todos nós tivemos a oportunidade de reler coisas que escrevemos, coisas que às vezes são até atuais, soluções que foram dadas há vinte anos e que nada aconteceu, e que no fundo poderiam ser feitas agora, e até que tem uma certa atualidade. No caso do transporte público, isso é comum. Por exemplo, dizer que a garantia de pontualidade de um ônibus é dada, em primeiro lugar, porque ele circula sem concorrência em faixa própria, meus Deus, esta idéia deve ter 50 anos na Inglaterra. E aqui, certamente tem 20, 30 anos. São Paulo foi até pioneira nisso, estabeleceu uma calha, uma linha na Mooca que estava em faixa própria. E depois foi abandonada, não teve continuidade. Então, às vezes, as idéias até existem, como por exemplo na parte habitacional. Formas de garantir e criar cooperativas, formas e mecanismos e até experiências que já existem, de criar a chamada “cesta da construção”, né? Não é propriamente uma cesta, porque não cabe numa cesta, mas é um conjunto de materiais de construção para cooperativas de auto construtores, para associações de auto construtores. Essas são idéias que não foram levadas à frente, mas que ainda hoje, em certas circunstâncias, valeria a pena levá-las para experimentá-las. Se elas não vão para frente ou se elas não forem experimentadas, é falta de vontade política de fazê-las, às vezes até falta de espírito público, né? E falta, portanto, de assumir a cidade, como disse o professor, como um conjunto de pessoas e não de um conjunto de coisas. É claro que as pessoas necessitam das coisas, no entanto. E não podemos pensar nas pessoas desligadas do ambiente físico onde estão as coisas…

Ainda que a entrevista esteja hoje ultrapassada, ela nos leva a pensar uma série de coisas, principalmente num momento em que a Prefeitura encaminha um projeto de revisão do Plano Diretor para a Câmara Municipal que foi feito em gabinetes, sem discussão pública, sem avaliar o que as comunidades dos diversos bairros pensam sobre isso.

O que está sendo feito pela cidade de São Paulo? O atual prefeito foi reeleito com uma margem expressiva de votos, e todos os institutos de pesquisa de opinião dizem que sua administração está sendo bem aprovada. Mas o que está sendo feito na cidade?

Pensemos no trânsito por exemplo, e vamos esquecer aquela cena eleitoreira do prefeito entregando um “checão” ao governador do Estado para aplicar nas obras do metrô. O tráfego de automóveis e de caminhões está sendo organizado? Está sendo incentivado o transporte público? Na minha opinião isso não está acontecendo. Ou vamos ficar esperando mais 10 anos pelo metrô, ou vamos tentar melhorar o trânsito de São Paulo agora.

E qual foi a grande medida de impacto deste ano no trânsito? Tirar os caminhões do centro expandido da cidade no horário diurno. Melhorou prá você? Para mim piorou.

E explico: aqui em casa a lei do psiu foi para o espaço. Já moro ao lado de um corredor de ônibus, e só quem mora em lugares assim sabe o que é sofrer com o barulho do tráfego. Como os corredores são importantes, só lamento que eles não sejam acompanhados de alguma proteção acústica, como uma maior arborização, para permitir que as pessoas que moram aí ao lado possam ter um pouco mais de conforto acústico.

Agora eu moro numa área com uma intensa mistura de usos, e atualmente minhas madrugadas são acompanhadas por sinfonias de caminhões em todo tipo de atividade: retirando lixo, retirando entulho mas também descarregando mercadorias, abastecendo lojas e postos de gasolina. A decisão que foi tomada para fazer com que os carros da cidade possam andar a uns 3 km/hora a mais me custam horas de sono.

Culpa do prefeito? Claro que não. Mas culpa de decisões de gabinete, que não levam em conta as visões e reivindicações de todos os interessados (e que sofrem) os problemas da cidade. Decidiram assim com o problema do tráfego, e todos sabemos que tirar os caminhões só empurrou o problema do trânsito de São Paulo para o ano que vem ou para o outro.

E aí vem um novo plano diretor…. Quero discutir os rumos de São Paulo, quero participar da revitalização de nossos espaços públicos, quero dizer qual é meu sonho de cidade… e você?

Wilheim era Secretario de Planejamento no governo da ex-prefeita Marta Suplicy. Leia na integra a entrevista dele no Roda Viva (clique aqui) ainda que esta tenha sido feita na época do governo Pita. É importante ouvir o que aqueles que não estavam no governo na época e nem estão agora têm a dizer.

E brigue por São Paulo, e por uma revisão do Plano Diretor que considere o que eu penso e o que você pensa, e não só o que eles pensam, por melhores intenções que eles possam ter… como já diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio!

E você pode participar dum evento que estará discutindo planejamento em São Paulo e se posicionando em relação à revisão do PD que está na Câmara, aquela revisão que ninguém viu nem ninguém discutiu. O evento é esse aqui:

Na segunda-feira, 8 de dezembro, na Casa da Cidade, várias entidades da sociedade civil e personalidades participam de debate em defesa do processo participativo na elaboração da Revisão do Plano Diretor da Cidade de São Paulo. No evento, será lançada a “Carta Social em Defesa do Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo – Por uma cidade justa, democrática e sustentável”.

Nesse dia, serão apresentadas as razões que justificam a posição contrária a aprovação do Projeto de Lei de Revisão do Plano Diretor que está na Câmara Municipal de São Paulo. Serão também apresentadas propostas de metodologia participativa para a elaboração da revisão do Plano Diretor Estratégico de São Paulo.

Presenças confirmadas:

Nabil Bonduki – FAU-USP, coordenador da Casa da Cidade, ex-vereador e relator do Plano Diretor
Jorge Wilhein – urbanista e ex-secretário de Planejamento Urbano (2001-4)
Francisco Macena – vereador e membro Comissão de Política Urbana – Câmara Municipal de São Paulo
Maurício Broinizi – Movimento Nossa São Paulo
Lucila Lacreta – Defenda São Paulo
Evaniza Rodrigues – Coordenadora da União de Movimentos de Moradia
Raquel Rolnik – FAU-USP e Relator de Direito à Habitação da ONU
Kazuo Nakano – Instituto Polis
Maria Lúcia Refinetti – FAU-USP, coordenadora do LAB-HAB

Estarão presentes ainda vários representantes de entidades,
associações e movimentos sociais.

Local: Casa da Cidade.
Data: Segunda-feira, 8 de dezembro, às 20h.

Associação Casa da Cidade

Rua Rodésia, 398 – V. Madalena – CEP 05435-020 – São Paulo – SP

(11) 3814-3372

Um pensamento sobre “Debatendo a cidade de São Paulo que queremos

  1. Prezada Cecilia,
    adorei quando procurando algo sobre o Congresso Urban Age South America 2008 encontrei o seu blog…
    Fundo escuro, várias referências… Gostei!
    Muito a calhar esse encontro de hoje e esse texto sobre a cidade de São Paulo que queremos, o projeto para a Augusta, a adoção dos lugares públicos pelos cidadãos…
    Recentemente fui convidado a fundar uma ONG que pode solucionar parte dos seus problemas, como vc mesmo diz em relação ao barulho que “jorra” dos corredores de ônibus, ou em relação a transformação dos não-lugares em lugares, plantando árvores!
    A floresta urbana (www.floresta-urbana.org) tem a missão de enverdecer a cidade.
    Se quiser nos conhecer mais, escreva ok?
    abs
    jtimbo

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