palacio_industrias

Balanço de final de ano – demolições


Publiquei duas matérias esse ano sobre intenções de demolir habitações ocupadas por população de menor renda.

A primeira foi um apelo feito aos arquitetos do mundo todo para ajudarem a salvar o conjunto habitacional londrino Robin Hood Gardens, edifício construído entre 1966 e 72, projeto exemplar de Alison e Peter Smithson,  e que representa uma série de idéias defendidas por estes arquitetos, como as “ruas suspensas”, isto é, a utilização dos corredores nos andares como ruas/caminhos de pedestres e o uso do concreto aparente, numa estética que ficou conhecida como “novo brutalismo” na Inglaterra, da qual esses arquitetos são representantes máximos.

robin-hood-gardens

Robin Hood Gardens – foto de Joseph beuys hat do Flickr

Você pode ler bastante sobre o conjunto na internet, da Wikipédia a matéria da associação inglesa The Twentieth Century Society, que fala da decisão tomada pelo órgão de patrimônio histórico inglês de não incluir o conjunto na lista dos protegidos. Em Julho de 2008 a batalha parecia perdida, a decisão de demolir o conjunto estava tomada, e não havia nada mais que o impedisse. Mas a revista inglesa Building Design voltou a falar do conjunto agora em Dezembro e a ter esperanças, porque a crise econômica está fazendo o governo inglês em todas as suas instâncias a rever os projetos de demolição de moradias e investir na reforma e preservação dos já existentes. Essa nova abordagem política que a crise está trazendo a tona salvará Robin Hood Gardens?

robin-hood-gardens2Robin Hood Gardens foto de Joseph beuys hat no Flickr

Com todos os seus problemas, pode o edifício, a solução arquitetônica ser culpada pelos índices de criminalidade, pela degradação que o lugar abriga, ou isso é resultado de situações de ordem mais ampla, como a desvalorização de determinados trechos das cidades, e da pobreza e da falta de oportunidades a que está sujeita uma grande parcela da população? Robin Hood Gardens fica no East End londrino, um dos bairros mais degradados da capital inglesa.

Mas não quero discutir aqui os motivos que levam a administração do distrito de  Towers Hamlets a querer demolir o conjunto dos Smithsons, mas a discutir uma outra proposta de demolição de moradias abordada por esse blog, que é a dos edifícios Mercúrio e São Vito, no centro da cidade de São Paulo, em plena Zona Cerealista, e que nessa semana os jornais voltaram a comentar, mostrando que o Prefeitura está fazendo grande pressão para que os moradores saiam do Mercúrio, para que se possa começar a demolição dos edifícios.

mercurio-e-sao-vito2Edifícios Mercúrio e São Vito

foto do blog panoramasaopaulo.blogspot.com

Se a resistência dos moradores e o apoio de movimentos de moradia não consegue demover a intenção da Prefeitura em derrubar os edifícios para ali construir “uma praça”, quando a grande área vazia que circunda o Palácio das Indústrias logo ali ao lado permanece abandonada e sem uso desde que a o gabinete do Prefeito se transferiu para o Edifício Matarazzo no Viaduto do Chá, o que poderia fazer com que esses gestores percebessem a importância de investir em habitação no centro e em aproveitar estruturas já existentes, reformando-as e garantindo melhores condições de moradia à população?

palacio_industriasVeja o tamanho da área sem uso em volta do Palácio das Indústrias, ao lado do Mercúrio e do São Vito que vão derrubar para fazer uma praça!

A justificativa da Prefeitura é econômica. O custo não permite investir nos edifícios. Se continuarmos usando justificativas somente econômicas para desenvolver políticas de habitação popular, continuaremos a levar a população para morar nas distantes periferias da cidade, política condenada por todos os especialistas que vem estudando o resultado que este tipo de ação vem gerando.

O fato das moradias terem deteriorado é culpa das precariedade da construção ou da deterioração de um centro urbano que empurrou seus moradores de maior renda para outras áreas da cidade?

E para voltar a trazer esses moradores de maior renda para o centro é preciso demolir edifícios como o São Vito e o Mercúrio e construir praças no local?

Vamos deixar a zona cerealista no centro da cidade com seus movimentos de caminhões, tráfego pesado, dia e noite e acreditar que estamos mudando o centro porque tiramos dois edifícios que são exemplos da deterioração das condições de moradia no centro da cidade?

E quais são as outras intervenções que a Prefeitura está prevendo para o centro? Você sabe? Eu não. Políticas autoritárias, pouco discutidas e por isso pouco aprofundadas estão levando a ações que serão pontuais e em nada poderão modificar o centro de São Paulo.

Convido a Prefeitura a chamar um grande debate sobre o centro da cidade, a colocar na mesa todos os seus projetos para o centro e discutí-los abertamente. Convido as associações de moradores ou de usuários, como a Associação Viva o Centro, movimentos de moradia como o Centro Gaspar Garcia, ongs como Defenda São Paulo e Nossa São Paulo a propor discussões sobre o centro e idéias alternativas.

Não quero saber o que a Prefeitura quer para o centro da cidade de São Paulo, quero saber o que todos nós queremos para o centro da cidade de São Paulo. Talvez eu até me convença que é necessário demolir o São Vito e o Mercúrio, mas quero saber o que mais vai se fazer no centro da cidade, onde estão as outras ações de recuperação. Uma cidade sustentável não começa pela implantação de mais áreas verdes, uma cidade sustentável começa por decisões democráticas sobre os rumos que ela deve tomar.

E o queremos é fazer de São Paulo uma cidade sustentável, com um centro urbano que possa agregar diversas classes sociais e que mantenha seu mais rico aspecto, uma amostra do cadinho de raças e origens que faz o povo que habita essa cidade, que faz dela o local de encontro de brasileiros de diversas origens e de estrangeiros enamorados por ela.

Começamos o ano com ameaças de demolições aqui e em Londres. Em Londres estão pensando em rever a decisão.  Em São Paulo estão retirando os últimos moradores do Mercúrio. Essa é mesmo a melhor política?

o outro post sobre o Robin Hood Gardens você encontra clicando aqui

o outro post sobre o São Vito e o Mercúrio você encontra clicando aqui

Um pensamento sobre “Balanço de final de ano – demolições

  1. Triste essa realidade sobre o São Vito e o Mercúrio, hoje já em processo de demolição. Estrutura comprometida? Do jeito que estava, com certeza não era uma boa moradia. Mas que fosse reformado! Uma estrutura daquela densidade, com certeza, jamais será permitida na legislação atual… e o que fazer para relocar tanta gente? Como sempre, o dinheiro valendo mais do que as pessoas, nessa lógica consumista em que vive nosso mundo. E que moremos longe, nós pobres… não nos querem perto de nada mesmo. Maldita especulação.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s