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O Minhocão de São Paulo


elevado-costa-e-silvaProcuram-me outro dia para saber o que acho do minhocão, alcunha que recebeu o elevado Costa e Silva, uma via elevada que serpenteia sobre a Avenida São João, General Olímpio da Silveira e Amaral Gurgel aqui em São Paulo.

Construído no início dos anos 70, a via com 2,7 km de extensão, com uma largura variável de 15,5 m e 23 m e elevada a 5,5 m do solo, recebe nos horários de pico cerca de 1.400 veículos por hora.

elevado-costa-e-silva-3Ao mesmo tempo que é um importante canal para escoamento do tráfego na ligação leste-oeste da cidade, o elevado por se constituir como uma estrutura agressiva e esteticamente sofrível, e principalmente, por passar em alguns trechos a somente 5,0 m das janelas das construções residenciais e de escritórios que ladeiam o elevado, constituiu-se como uma cicatriz urbana, responsável pela desvalorização de todos os imóveis vizinhos e que contribuiu para a cotidiana degradação da área central da cidade.

elevado-costa-e-silva-2A parte inferior de sua estrutura, nas proximidades da Praça Roosevelt, é lugar conhecido como local onde se juntam crianças e adolescentes fumadores de crack, além de moradores de rua. Ao elevado não pode ser atribuida toda a culpa das mazelas da região e da deterioração das condições de vida da área central da cidade, mas que ele ajuda… ah como ajuda!

Se você pesquisar um pouco vai ver que há muita coisa para ler sobre o Minhocão na internet. Tem também um livro muito legal sobre o elevado, publicado pela Imprensa Oficial em Dezembro de 2008 e organizado pelas arquitetas Rosa Artigas, Joana Mello e Ana Claudia Castro: “Caminhos do Elevado: Memória e Projetos”.

Odiado por muitos, justificado por usuários que por ali passam todos os dias, e defendido pelo político responsável pela construção dessa feidade, o elevado já foi objeto de discussões e projetos, mas tudo o que ganhamos até aqui foram pilhas de papel e de arquivos de internet, trabalhos acadêmicos, mas absolutamente nada se fez de concreto.

Em 2006 foi realizado um concurso de idéias para intervenção no minhocão, o 2º Premio Prestes Maia de Urbanismo, onde vários escritórios e equipes apresentaram idéias para o lugar. Os projetos trouxeram soluções diferenciadas, e o projeto vencedor, de José Alves e Juliana Corradini propôs o encapsulamento das pistas elevadas do minhocão formando um retângulo completamente fechado e isolado do exterior, e sobre esse retângulo foi proposto a criação de uma grande área verde na região. O projeto continua como somente mais uma idéia para a cidade, não foi seriamente considerado pela administração.

projeto-minhocaoProjeto vencedor do 2º Premio Prestes Maia de Urbanismo

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Em termos de melhorar a acessibilidade da área e mesmo o atravessamento dessa região, temos algumas conquistas. A linha do metrô leste-oeste corre em um pequeno trecho paralela ao elevado, mas para desafogar ainda mais o trânsito precisaria ser estendida até a Lapa.

O corredor exclusivo de ônibus sob o elevado tem demonstrado ser uma alternativa mais rápida ao automóvel, mas as linhas são interrompidas no centro, fazem predominantemente a ligação centro-oeste, em direção a zona leste o corredor de ônibus ainda não decolou. Desconheço estudos sobre a capacidade viária das ruas paralelas, visando criar binários e aumentar a capacidade de fluxo das vias, mas sei que em determinados trechos (nas imediações da Avenida Pacaembu, por exemplo) a topografia não permite a utilização de vias alternativas. Mas alguns arquitetos que participaram do concurso de 2006 sugeriram a demolição do minhocão e para isso fizeram estudos de vias alternativas.

Volta-se a questão hoje: o que fazer com o minhocão? Estamos numa encruzilhada, aqui em São Paulo. A cidade em sua parte mais central está no limite de sua capacidade de absorção de veículos. O metrô e os trens metropolitanos em horário de pico tem determinadas linhas completamente superlotadas. Sobram carros na cidade e falta transporte coletivo. A metrópole é desequilibrada na sua função moradia/trabalho. Os empregos estão todos no mesmo lugar e as moradias em todos os lugares, mas principalmente nos bairros periféricos. Não vejo uma solução fácil a curto prazo, penso mesmo que a cidade vai perder muito mais do que já perdeu com suas “deseconomias de escala”, para citar um jargão de economistas.

O trânsito violento e barulhento não existe só no minhocão: ele existe em toda a cidade. Um estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo constatou que, em 95% dos principais pontos de circulação de veículos do centro expandido, o barulho provocado por carros excede os limites estabelecidos pela legislação municipal. Dos 19 pontos de tráfego intenso avaliados, só 1 obedece à lei – segundo a qual, em ambientes abertos, os ruídos não podem exceder 55 decibéis de dia e 45 à noite. Em quase todos os locais, a média fica próxima de 80, com picos de 105 decibéis.  Locais como a Avenida General Olímpio da Silveira, embaixo do Minhocão, tiveram média constante de 80 decibéis, com picos de 108. Na Radial Leste, na Marginal do Pinheiros, nas Avenidas Rebouças e Itaquera, o nível de ruído esteve entre os mais altos encontrados.

Ou seja temos problemas de vários tipos. A cidade está parando, as pessoas estão ficando surdas, as ruas estão se deteriorando como locais de convivência e lazer, os distúrbios causados pela vizinhança de um minhocão estão se espalhando por toda a cidade.

Qual é a solução? Temos que inverter as prioridades. Temos que tirar os carros das ruas, obrigar as pessoas a usar meios alternativos de transporte ou o transporte coletivo. Temos respostas para isso: o pedágio urbano é uma alternativa, a criação rápida de um grande número de corredores exclusivos de ônibus é outra, o aumento das linhas de metrô já é um pouco mais demorado, mas também é necessário. A criação de grandes áreas de estacionamento ao lado de estações de trem ou de metrô também pode ajudar bastante.

O poder público tem ainda que interferir na criação de novas áreas de negócios e empregos e numa distribuição da população de renda média de forma mais equilibrada na cidade. O mercado imobiliário não dá conta disso. O mercado imobiliário corre atrás de tendências, valoriza áreas que já entraram em um processo de valorização, normalmente por ação do poder público. A ação de criar áreas que sejam centro novos de negócios e comércio é de mais longo prazo, mas a discussão do Plano Diretor deverá acontecer este ano novamente, é hora de definir prioridades.

E precisamos de alguma forma de gestão metropolitana. Parte dos problemas de São Paulo vem do fato de não termos uma gestão metropolitana, uma gestão que lide com os desequilibrios entre os vários municípios que compõe essa região.

Então com essas ações encaminhadas, será fácil decidir o que fazer com o Minhocão. Pois quando melhorarmos o transporte coletivo ou quando as pessoas não se movimentarem tanto no trajeto casa-trabalho ele poderá ser dispensado de sua função de via exclusiva de veículos. E aí poderemos derrubá-lo, como o viaduto no centro de Boston que foi derrubado ou a via sobre o rio Cheonggyecheon em Seul. Custa caro, mas certamente valerá a pena.

Ou então poderemos adotá-lo, como fez a população de Nova York em relação a High Line, uma linha de trem que atravessa um trecho da cidade, e para a qual foi desenvolvido um projeto paisagístico, transformando-a num parque. E o minhocão virará uma grande minhoca verde, um parque urbano no centro da cidade.

Sem essas alterações o que nos resta hoje é fazer uma opção: ou pensamos as ruas atravessadas pelo minhocão como um local de atravessamento da cidade ou pensamos essas ruas como um espaço para a convivência humana e a fruição do urbano.

No primeiro caso, podemos melhorar um pouco a situação, implantando o projeto vencedor do Prêmio Prestes Maia de Urbanismo, por exemplo, mas não nos esquecendo dos “baixios” do minhocão, de revigorar as calçadas da região, criar algum tipo de paisagismo que possa se aproveitar da pouca luz natural ao mesmo tempo que se implanta uma iluminação artificial que humanize aquele local.

No segundo caso, sejamos radicais, coloquemos o elevado abaixo e pensemos em recuperar uma vizinhança que já há 30 anos está sofrendo com poluição sonora e atmosférica elevada.

Que o Prefeito tenha coragem de fazer uma opção e agir, porque não temos o que mais discutir em relação ao Minhocão, precisamos de vontade política.

Até lá (e que não demore pois não temos muito tempo) minha sugestão é que se diminua o horário em que o minhocão pode ser utilizado, proibindo seu uso fora dos horários de pico. Os moradores certamente vão agradecer, e se aumentar um pouco os congestionamentos, motoristas não sofram muito, pois não há soluções fáceis para essa nossa cidade, e já é hora de pensarmos mais em soluções coletivas e que humanizem nossas ruas e avenidas.

5 pensamentos sobre “O Minhocão de São Paulo

  1. Pingback: High lines | Jardim de Calatéia

  2. precisamos de verde e mais verde para a nossa cidade!!!precisamos embelezar mais a nossa cidade com parques.boulevard,chafarizes e jogos com agua para refrescar mais as pessoas…os cidadaos precisam de mais àreas de lazer como por exemplo construir tuneis debaixo das marginais para a passagem dos automoveis e na parte de cima transformar esses terriveis lugares em grandes parques com muita area verde, ciclovias em torno das pistas e usar as aguas dos rios (preferivelmente despoluidas) como lagos mais ou menos como no ibirapuera, agregando assim o campo de marte e o complexo do anhembi a esse grandioso projeto de mais verde para a cidade de sao paulo!!! no final das contas se resolveria todo os problemas com estas zonas degradadas aproveitando as novas pistas que estao jà sendo construidas para ajudar o fluxo de automoveis e ao longo de toda marginal pinheiros e tiete implantar em alguns trechos esses tuneis podendo assim construir finalmente estes grandes parques lineares para a alegria e orgulho de todos nòs que infelizmente devemos sofrer com o dia a dia na cidade de sao paulo!!! mais verde e lazer jà para a populaçao!!!

  3. Achei o projeto do Premio Prestes Maia interessante, mas acho mais adequado com as modificações:

    – Construir a praça/parque diretamente sobre as pistas retirando os carros dali
    ou
    – Construir o tal túnel para a circulação exclusiva de um VLT, silencioso e não poluente.

    Acho também que o tal parque deve ser abero 24 horas todos os dias, com a circulação de pedestres e bicicletas.
    Esse papo de que o minhocão é importante para a circulação de carros não pode servir como desculpa. A prioridade na cidade de São Paulo deve ser a circulação de pessoas. Para o trafego de carros Oeste-Leste deve-se utilizar a Marginal

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