Ilha perto Constituição

As “ilhas” do Porto – Portugal


Tive acesso esse ano a uma publicação da Câmara Municipal do Porto, sobre estudos sócio-econômicos realizados em 2000, sobre os moradores das “ilhas” da cidade. E o que são essas “ilhas”? São parentes irmãs de nossos cortiços, na forma de casas de cômodo, ou vilas, corredores de habitações geminadas no fundo de lotes, cada uma delas dispondo somente de 1 ou 2 cômodos, sem banheiro, e alugadas para famílias de baixa renda.

ilhaIlha no Bairro de Herculano – Porto

foto de Graciete Dantas

Fui pesquisar um pouco sobre esse tipo de moradia, e encontrei boas informações na Wikipédia. Transcrevo aqui um pequeno trecho:

O lote almadino tinha, normalmente, 5,5m de largura, de frente para a rua, por uns 100m de comprido. As casas burguesas eram construidas nos primeiros 30m, sendo que ficavam a sobrar uns 70m nas traseiras das casas. O proprietário abria uma ligação por baixo da casa por um corredor até ao fundo do quintal, de 1 a 2 metros de largura, e de um lado e de outro construia pequenas habitações precárias.

Essas eram então pequenas habitações com áreas que não excediam os 16 m² (algumas apenas com 9 m²), construídas em fila (algumas vezes também costas com costas), nos quintais das casas da classe média que davam para a rua. As frentes dessas habitações tinham, regra geral, cerca de 4 metros, tinham uma porta e uma janela (que deitavam para o corredor central). A primeira divisão, que ocupava quase toda a casa, era a sala. Ao fundo existia um quarto, de 2,5m por 1,5m, e uma cozinha, de 1,5m por 1,5m. Por vezes, era improvisado um pequeno quarto no sotão. As retretes eram comuns, sendo que correspondiam, em média, 1 retrete para cada 5 casas. (aviso aos brasileiros – retretes são sanitários)

estudo ilhasAparentemente a mesma ilha, não parece?

Essa foto é de uma estudante de arquitetura – Karoline Kalstveit – que fez uma viagem de estudos à cidade do Porto

Como a publicação que recebi era de 2000, 9 anos passados, pesquisei um pouco sobre essas moradias na internet, e o resultado parece mostrar que pouca coisa mudou (José António confirme isso). Uma postagem de 2007 citava dados do final do século XX e dizia que viviam em ilhas 9.000 pessoas, em 7.654 moradias, uma densidade pequena, se a compararmos com os cortiços de São Paulo. (1,17 pessoas/moradia lá para 3,7 pessoas/moradia cá). Parece que não foram feitos novos estudos após 2000.

Os dados que dispomos, de pesquisa realizada entre Abril e Dezembro de 2000, informa a existência de 5.900 casas em “ilhas”, sendo 5.182 habitadas por 13.500 pessoas (2,6 pessoas por casa, portanto). A pesquisa abarcou ainda o que foi denominado de “ilhas atípicas”, bairros operários, quintas e vilas com condições habitacionais semelhantes, agrupando mais 2.771 moradias, das quais 2.474 habitadas por 6.500 pessoas.

Ilha perto ConstituiçãoIlha próxima da Rua da Constituição

foto do website chuva-bomtempo.blogspot.com

Os resultados da pesquisa mostram que 2/3 das famílias em pobreza relativa (25,8% do total de famílias) ganhavam menos de 1 salário mínimo mensal. A maioria dos moradores trabalham, são trabalhadores não qualificados e operários, tem menos de 40 anos, e uma grande parte da população (mais de 60%) vive nesses núcleos há mais de 30 anos.

O interessante da pesquisa, a meu ver, foi o levantamento da expectativa que esses moradores tem em relação à intervenção pública no núcleo: 30,8 % consideram prioritário a relocação/demolição das moradias. 23,7% acham que as casas e os equipamentos devem ser recuperados, 6,9% acham que devem ser instalados sanitários privativos, 3,5% acham que não deve ser feito nada, e o restante aponta várias questões que não estão diretamente ligadas ao estado/situação da moradia, como melhoramento dos acessos ou reforço do policiamento.

A matéria que citei de 2007 coloca as seguintes propostas de políticos da cidade do Porto:

DEMOLIÇÕES DE ILHAS DESDE 2002 Câmara Municipal do Porto

A vereadora do Urbanismo, Matilde Alves, afirmou que a edilidade desde 2002 tem demolido ilhas degradadas. Todavia, nas que são de privados “apenas podemos negociar a solução mais adequada”.

UM PROBLEMA MUITO GRAVE DA CIDADE Partido Socialista

O vereador socialista, Francisco Assis, afirma que este é um dos “problemas mais graves da cidade”. Defende um plano a dez anos para reconverter o parque habitacional.

PARCERIAIS COM OS SENHORIOS PRIVADOS Part. Comunista Português

Rui Sá, do PCP, defende que algumas das ilhas podiam ser recuperadas como “memorial histórico”: “Nos restantes casos a Câmara devia estabelecer um plano de parceria com os senhorios”, argumentou.

ILHAS SÃO LOCAIS SEM SALUBRIDADE Bloco de Esquerda

João Teixeira Lopes, militante do Bloco de Esquerda, defendeu que as “ilhas são locais sem salubridade”. “A Câmara não construiu uma única habitação social. Querem os pobres fora do centro da cidade.”


Alguns deles muito pouco antenados com a posição dos moradores!!!!😦

Gostaria muito de saber como está a situação hoje e como Portugal vem tratando a questão da habitação social em cortiços. Não achei informações na web.

Aqui em São Paulo vimos recuperando as construções e ampliando, quando possível, o número de moradias, visando atender melhor à população. Se os colegas portugueses (e brasileiros) quiserem saber um pouco de nossos cortiços, recomento o site da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e o site da Secretaria de Habitação da Prefeitura Municipal de São Paulo (nesse caso use a lista de cortiços – nome – disponível no site da USP).

Também recomendo o livro de Andrea Piccini – Cortiços na Cidade: conceito e preconceito na reestruturação do centro urbano de São Paulo, já citado neste blog, publicado pela Ed. Annablume.

(grata José António Ferreira por possibilitar meu contato com essa realidade da habitação social da cidade do Porto)

O comentário postado hoje por José António Ferreira me levou a uma reportagem de 25/10/2009, do jornal português “Jornal de Notícias”, matéria denominada “Ilhas do Porto: há quem tome banho em bacias”. De lá copiei o video abaixo, onde é entrevistada uma moradora de uma dessas vilas, a Ilha na Rua São Vitor.

 

dica meio fora de propósito: e se vocês quiserem ver fotos lindas de ruas da cidade do Porto e outras moradias populares cliquem aqui

15 pensamentos sobre “As “ilhas” do Porto – Portugal

  1. Sempre entendi que estar em cargo público e fazer política em democracia é trabalhar com rigor, sinceridade, honestidade, empenho e determinação para ajudar todas as pessoas a resolver os seus problemas e proporcionar mais saúde, felicidade e bem-estar para todos, principalmente para as famílias mais desfavorecidas.

  2. Pingback: 0.0.1. A Juventude de Meus Pais | Caminho de Vida

  3. Sou estudante de Ciências da Comunicação e vim parar a este blog no seguimento de uma pesquisa para um documentário sobre a tipologia habitacional característica do Porto denominada Ilha. Parece-me óbvio que a pertinência de comentários de índole polítco-partidária é questionável, sendo que me perdi no seu meio à procura de alguma informação que fosse de encontro ao tema.

    Não a encontrei e fiquei com pena. Apelo para que partilhem sempre o vosso conhecimento sobre o tema e contribuam para valorizar este espaço maravilhoso que pode ser a Internet.

  4. Mada mais patético que o texto do Sr. Mário de Sousa do Bnfim.
    O Sr. Mário parece orgulhoso da gestão socialista da Câmara do Porto.
    Vejamos o que a gestão socilista deixou em 2001: Buracos por todo o lado e obras por pagar, dívidas astronómicas, 49 bairros sociais degradadíssimos, corrupção generalizada de dirigentes e funcionários, contas de restaurantes do ex-presidente e respectiva mulher, carros de luxo por pagar, ilhas municipais miseráveis, Empresas municipais com salários principescos para os presidentes do C.Administração, derrapagem de custos em todas as obras, centro histórico decadente e deserto.
    A gestão do Social-democrata Rui Rio alterou, felizmente tudo isto:
    Os buracos foram tapados e reabilitados, as dívidas foram pagas, o Tribunal de Contas elogiou recentemente a gestão da Câmara Municipal, por ser a única com contas em ordem. 22 bairros sociais foram totalmente reabilitados, foram demolidas as ilhas municipais com realojamento das famílias – restam duas em estdo razoável -, a corrupção foi ferozmente combatida – há ainda casos na Tribunal Criminal , o actual Presidente almoça em casa ou leva a comida de casa, não se comprou qualquer carro para os serviços. O s Presidentes do C. Administração, se vereadores ganham zero, os outros viram os salários reduzidos a 50%, não há derrapagem de custos de obras, confimado pelo tribunal de Contas, o Centro Histórico está quase recuperado, quarteirão a quarteirão, rua a rua .
    As ilhas existentes, em estado deplorável, são privadas. São propriedade privada e os seus proprietários são continuamente notificados para as demolirem ou fazerem obras imprescindíveis. A CMP não tem capacidade para alojar toda a gente em bairros municipais. Em boa verdade a missão da Câmara não é o arrendamento de habitação social, mas incentivar a existência de cooperativas para os cidadãos de parcos recursos.
    A Vereadora Matilde Alves não disse tudo, por delicadeza. Testemunho e corroboro tudo o que afirmou, por ser verdade.
    Os comentários do Sr. Mário são injustos, facciosos e até falsos.
    A gestão socialista fez ao Porto o que a gestão Sócrates fez ao país.
    Nem mais , nem menos. Hoje , Portugal é um pedinte europeu.
    A Srª Cecília Lucchese poderá não comprovar as afirmações de Matilde Alves, mas seguramente jamais provará as de Mario de Sousa, porque objectivamente são falsas, como falsas são algumas notícias do pasquim JN desta cidade que elegeu Rui Rio como inimigo nº 1 a abater, por não ser…socialista!!! Se direitos deveriam constar na Constituição, o primeiro deveria ser o de cada cidadão exigir transparência e rigor nas contas públicas. Todos os outros direitos seriam deste decorrentes. Assumo a responsabilidade do que afirmo e não pertenço à administração camarária. Sou apenas portuense atento, crítico e livre.

  5. O blog permite a manifestação de todos, desde que não haja ofensa a pessoas. No caso no comentário da Sra Vereadora da Cidade do Porto, Matilde Alves, estou publicando-o, não tendo possibilidade de avaliar sua justeza. Fica aberta a possibilidade de confirmação ou contestação das alegações a todos os interessados, uma vez que este fórum é público. Agradeço desde já a participação de todos, lembrando que a autora desse blog acredita que a remoção de moradores de seus assentamentos só deve ser realizada com justificativas muito fortes, como risco à vida e à saúde dos moradores, ou necessidades coletivas dos habitantes de uma cidade, que estejam acima do interesse de um grupo de pessoas.

  6. Sou a responsável na Cãmara Municipal do Porto, como vereadora da Habitação que desde 2002 não é governada pela partido socialista
    Os “excelentes” projectos que o Sr Mario de Sousa da freguesia do Bonfim acima refere, não foram nem excelentes nem sequer qualquer coisa, porque 12 anos de gestão socialista, onde abundavam os recursos a fundo perdido e da Administração central, deixaram em 2002 uma Cidade cheia de buracos, com cerca de 20% da sua população a viver em bairros sociais da década de 40 sem qualquer obra de manutenção, a envergonhar a 2ª cidade do país, com um total de cerca de 50.000 pessoas a viver em situação de degração tal que permitiu que exisstissem bairros completamente guetizados, verdadeiros supermercado de droga, como era o bairro S. João de Deus, entretanto demolido em 2008 e o bairro do Aleixo em proceso de demolição neste momento. Em 2002 esses tais projectos de “excelencia” deixaram os bairros preenchidos de rendimentos Sociais de Inserção,eternizando as pessoas, irresponsavelmente, na dependência dos subsidios, na falta de preparação para a vida e na ausência de formação que as autonomizasse.ao mesmo tempo que se davam subsidios para as manterem improdutivas e ignorantes para melhor as manipular enquanto se gastavam milhões na glorificação do Porto capital da Cultura ou na construção dos estádios de futebol, que hoje por não terem publico para tal tamanho começam já a ser propostos para o desmantelamento, Iniciava-se ainda o inteligente processo das parcerias publico/privadas que haveriam de levar o País a situação de ajuda externa do FMI e a praticamente bacarrota em que se encontra Esse foi o grande legado da dita gestão socialista que , hoje nos envergonha e nos coloca de mão estendida
    De 2002 até hoje já foram investidos em Habitação social mais de 140 milhões de Euros. E, dos seus 49 bairros distribuidos pelas 15 freguesias com cerca de 15.000 fogos é só andar pela Cidade para ver como está hoje. E, sobretudo pensar como estaria se não tivessemos tratado destas areas marginais da Sociedadede, muito perto já da criminalidade!!! Estariamos decerto hoje a falar não de uma Cidade ainda com muito trabalho pela frente sempre no sentido único da coesão social , mas de uma Cidade própria de um filme tipo farwest americano
    Estou certamente disponivel para falar do que foi feito, como foi feito, para que foi feito e, em direção a quê foi feito, a todos quantos tenham a coragem de dizer que querem saber porque são humildes na sua sabedoria e, sábios na sua humildade para querer contribuir
    Matilde Alves
    Vereadora da Habitação da CMP

  7. Ao pretender desenvolver um trabalho com base nas minhas memorias e ao fazer uma pesquisa para de certo modo não ser impreciso em alguns dados que pretendo mencionar neste, dei com esta pagina e ao ler alguns destes apontamentos senti vontade de deixar um comentario.Devo dizer que desde muito miudo e até aos meus 23 anos mais ou menos vivi numa destas ilhas.Vivi no nº 1819 da av. da Boavista uma ilha com frente directa para a avenida. Na epoca existiam dois complexos fabris no ramo da fiação e tecelagem. Era um conjunto de tres ilhas e uma pegava com a referida fabrica e que de momento não recordo o nome existia ainda outra fabrica de dimensão maior que pretencia a familia William Graham fundada em 1889 hoje todo espaço corresponde ao complexo habitacional do Foco no Porto. Mas isto para testemunhar que nem sempre estes getos correpondiam à definição que normalmente é dada de que eram meios degradados e foco de doenças conflitos e pobreza. É claro que não eram locais com grandes condições de habitação. Para os meus pais foi uma forma de conseguir uma habitação economica isto entre 1956 e1957 altura em que eu nasci. descrevendo aquela ilha ela era constituida por cinco casas de cada lado frente com frente com um corredor central aproximadamente com 2m e no resto correspondia exactamente ao padrão de casa encontrado. casas com uma frente de 4m com uma janela e uma porta a divisão principal sala que compunha quase toda a casa um quarto com 2.5×1.5 e uma cozinha com1.5×1.5 tinha ainda um sotão que sobrepunha o quarto e a cozinha. Os agregados familiares que ali viviam inicialmente foram operarios daquelas fabricas enquanto laboravam, em media cada familia tinha dois filhos só no meu caso na minha familia existiam 5 filhos mas tinhamos a particularidade de ocupar duas casas que ao fim de alguns anos foi transformada numa só. É importante aqui referir que era sempre preocupação dos moradores fazer a manutenção destas e qualquer necessidade de fundo era logo colmatada por todos num espirito de entreajuda. As profissões ali existentes permitiam tal preocupação pois podiamos contar com carpinteiros pintores trolhas electrecistas e canalizadores. Testemunho que o espirito mantido era o ideal na convivencia e entreajuda socialmente tambem é verdade que algumas vezes não foi possivel evitar alguns conflitos mas posso confirmar que fui feliz naquela ilha os niveis de educação dada por aqueles pais aos filhos ali criados foram de longe conseguidos, hoje todos eles continuam a ser gente de bem alguns licenciados eu tenho concluido o ensino secundario da escola industrial infante D. henrique em construção civil assim como meu irmão, as minhas irmãs concluiram cursos comerciais nivel secundario um outro irmão concluiu curso superior em fiscalidade assim como praticamente todas crianças que ali viveram. Em jeito de conclusão e atendendo ao momento que vivemos quase podia arriscar que com estudos cuidadosamente e devidamente sustentados podiam ser uma solução para o nosso pais porque é possivel este modelo e eu sou testemunha de que foi possivel.

  8. Podemos sempre ter pelo menos dois pontos de vista sobre qualquer tema. No caso da “Ilhas” do Porto reconheço que tento ceder ao preconceito de que elas são diferentes do sitio onde vivo. “Elas” resumem a realidade portuguesa e podem ser um bom exemplo do que devemos fazer. a população portuguesa vive em níveis económicos de baixos recursos e apesar disso tem níveis de consumos exagerados.
    Quem vive numa “Ilha” recorre ao essencial para viver. Desenvolveram um sistema comunitário de entre ajuda muito eficiente, sabe potenciar o espaço reduzido como ninguém e até consegue fazer micro-agricultura.
    É verdade que o espaço físico necessita de ser reabilitado, má ventilação, impermeabilização e até isolamento térmico e acústico, mas na verdade tudo isso é fácil de resolver e com custos muito baixos.
    A questão é se estamos todos preparados para aceitar outra formas de viver que não se identificam com os nossos padrões.

  9. Pingback: Dona Bina och Dona Lencastre « Världen sedd inifrån

  10. Assisti ontem, dia 28 de Abril de 2011, a “Grande Reportagem” do Jornal da Noite da Emissora SIC Internacional acerca dessa matéria e fiquei imensamente chocado, até porque tenho laços de ordem afectiva e familiar com a Cidade do Porto, nomeadamente a Freguesia do Bonfim, onde nasceu meu avô, em 1892. O facto é que parte da Zona Oriental do Porto está demasiado decadente, à espera de acções efectivas do poder público, com vistas à sua recuperação e revitalização urbanística.

  11. Hoje descobri um delicioso material de informação: o seu blog!

    Sou estudante do 7º período do curso de Arquitetura e Urbanismo da Ufes e estou desenvolvendo um trabalho acerca de conjuntos habitacionais.. O blog foi bastante válido para minha pesquisa!

    Dei uma olhadinha no link que vc deixou ao final do post. Fiquei encantada com a Vila de pescadores na Itália.. Fascinante!

  12. Mário obrigada pelo comentário tão esclarecedor. Você teria algumas fotos desses exemplos que cita para eu publicar aqui no blog. Ficaria bem interessante.

  13. Freguesia do Bonfim: ilhas que são no Porto uma questão de (in)segurança!
    As ilhas na Freguesia do Bonfim aparecem a partir da segunda metade do século XIX, com o início do processo de industrialização da Cidade do Porto. O seu surgimento é indissociável da incapacidade de o núcleo antigo da cidade responder à crescente procura de habitação operária.
    São soluções habitacionais colectivas de um só piso acrescido de um pequeno sótão em alguns casos, frequentemente de acordo com o modelo de costas com costas, construídas sem supervisão municipal, genericamente, com materiais muito baratos e de muito fraca qualidade, sobretudo nas traseiras de habitações da pequena burguesia da área central da cidade do Porto ou em quarteirões inteiros mais ou menos resguardados, com poucas infra-estruturas e com muito reduzida dimensão.
    São casas com telhados que não impedem a chuva de corroer o mobiliário e onde os ratos são convidados indesejáveis, deixando marcas de mordidelas nas caras e orelhas das crianças, são realidades que hoje ainda fazem parte do dia-a-dia de cerca de nove mil habitantes das ilhas do Porto.
    Ao caminhar pelas ruas estreitas, na Freguesia do Bonfim, onde as casas se encavalitam, torna-se difícil não tropeçar em pequenas habitações que escondem famílias de oito pessoas. Aqui, reinventam-se os quartos de dormir e para ir à casa de banho colectiva os moradores têm de sair ao pátio ou ter dentro dos pequenos espaços habitacionais o chamado de balde higiénico.
    Da casa dos Silva a vista é deslumbrante, com o Douro, em baixo, a estender-se languidamente numa imagem de postal a fazer as delícias de qualquer turista que se preze. No entanto, a beleza exterior do espaço entra em choque com a exígua habitação em que Fernanda e Serafim vivem com os seis filhos. Oito pessoas circulando num estreito corredor onde dois não passam ao mesmo tempo. Espreitando para a sala, no chão está um colchão a todo o comprimento, que serve de cama à filha, de 15 anos. Nas paredes já não se reconhece os 1300 euros gastos para melhorar a casa, há sete anos, quando saíram da barraca onde viviam. “Isto é uma miséria. Quando a nossa filha casada vem visitar-nos temos de a pôr a dormir no chão com o marido”, lamenta Serafim, de 50 anos.
    As dificuldades aguçaram o engenho e este desempregado da construção civil teve artes para fazer de um galinheiro o local onde a família se reúne às refeições. Cozinha não existia: ainda há bem pouco tempo se comia em fila na escada. “Foi graças a ele que as coisas melhoraram. Ficámos muito felizes por poder ter uma mesa”, solta Fernanda.
    A pobreza não roubou a esta família a alegria de viver, mas a palavra esperança custa cada vez mais a ser dita. “Vivemos com menos de seiscentos euros para oito pessoas. O que é que se faz com este dinheiro?”, argumenta Serafim. Revoltada com a sorte, Fernanda exalta-se: “Veja bem, olhe para este menino, já foi mordido por ratos nas orelhas.”
    Ilha Grande, na Rua de S. Vítor 
    Na Rua de S. Vítor, Freguesia do Bonfim, quase todos os portões dão acesso a ilhas. O hip-hop, ritmo preferido dos jovens aceleras, cria uma estranha mistura com o pimba, a gosto dos mais velhos. Na maior, a Ilha Grande, as histórias de pobreza e abandono repetem-se ao passar por cada porta. No entanto e paredes-meias existe um pequeno bairro social, chamado de Senhora das Dores, já pronto à bastante tempo e em espera de vésperas das eleições autárquicas (Outubro de 2009) para mais um show eleitoralista de entrega de habitações aos coitadinhos.
    As ilhas foram desde cedo um importante foco de insalubridade. A demolição de uma parte relevante das mesmas foi a génese do programa de habitação social camarário implementado no tempo do dr. Fernando Gomes.
    Em muitos casos, na sequência de vistorias feitas pela autarquia portuense os proprietários são notificados para proceder à respectiva demolição. Na maioria das situações são processos muito morosos.
    E em casos em que a própria autarquia portuense é o senhorio, como, por exemplo: a Ilha da Belavista, na Rua de D. João IV, na Freguesia do Bonfim, os moradores (já muito antigos no local) são chamados a pagar as suas rendas a tempo e horas. Em contrapartida a autarquia portuense não resolve os problemas que actualmente os seus inquilinos necessitam, como, por exemplo: o solo das traseiras de toda a ilha está actualmente a abater sem que ninguém tome as medidas necessárias para a resolução de tão perigosa situação. Talvez só tomem uma medida efectiva depois de acontecer uma tragédia.

    Muitos moradores das ilhas foram às suas custas melhorando as condições de habitabilidade das casas. Essa situação verifica-se sobretudo ao nível do saneamento básico, instalações eléctricas e também na melhoria de condições dos espaços subaproveitados.
    A cidade do Porto constituiu um bom exemplo no passado (de gestão socialista), ao nível nacional, no que respeita à operacionalidade de uma rede muito eficaz de serviços de redução de danos destinada àqueles grupos socialmente conhecidos. O Contrato de Cidade e o projecto para os sem-abrigo foram duas iniciativas inovadoras e exemplares para outros municípios do País. Eu vi de perto (também aqui nesta área) o associar sempre o saber ao saber fazer bem, consciente de que a acção sem estudo e sem reflexão não tem, nem faz sentido. Por isso, a avaliação e a produção de conhecimento sobre as problemáticas objecto de intervenção estiveram e deveriam continuar a estar sempre presentes na forma de gerir uma autarquia, quer seja no município portuense como nas juntas de freguesia (principalmente na Freguesia do Bonfim).

    Nesse passado (de gestão socialista), vi ser constituído um Observatório Permanente sobre a Segurança e vi responder às interrogações que a cidade colocava (nessa altura) no que respeita à segurança e ao sentimento generalizado de insegurança.

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