planta terreo

Patrimônio Histórico – a cidade de Corumbá – MS – Brasil


As disputas por território entre portugueses e espanhóis estão na origem da cidade de Corumbá, cujo primeiro vilarejo surgiu em 1.778, com o nome de Vila de Nossa Senhora da Conceição de Albuquerque.

Localizada às margens do Rio Paraguai, na divisa com a Bolívia, a cidade sempre foi estratégica para a entrada no “sertão” das mercadorias européias, e sua localização, após a serra de Albuquerque – que “fecha” o Pantanal ao sul, no último trecho facilmente navegável do Rio Paraguai para embarcações de maior calado, e a beira do Pantanal, lhe garantiu um rápido e rico crescimentos no final do século 19, começo do 20, quando a borracha da Amazônia passou também a ser exportada por ali. E nessa época só se chegava a Corumbá pelo rio!

corumbá

Foto de satélite do Google Earth – vendo a cidade e o Rio Paraguai

Mas antes disso, em 1868/69, ela foi totalmente reconstruída, porque a Guerra do Paraguai a tinha arrasado. Seu traçado ortogonal, pré-existente foi mantido e ampliado, mas as construções foram todas refeitas, e são do final do século 19, início do 20, as construções mais importantes, tanto as da “cidade baixa” -ao longo do rio barranca abaixo, quanto às da cidade alta.

mapa corumbádesenho do livro Atlas de Centros Históricos do Brasil

Mas o que chama atenção é realmente o casario do cais do Porto, erguido pelos comerciantes em estilo neo-clássico e art-nouveau, casarões com estrutura metálica e paredes de pedra, alguns dispondo no começo do século de elevadores hidráulicos e banheiras nos pavimentos superiores, banheira que eram enchidas com água trazida do rio ali na frente.

casario fabio shiromaUma foto do casario do cais do porto (cidade baixa) do Rio Paraguai — veja o disnível entre a beira do rio e a rua da área mais plana barranco acima

foto de Fabio Shiroma

foto antiga do cais do portoaqui uma foto antiga da cidade vista do Rio Paraguai

talvez anos 50

Rua manuel CavassaRua Manuel Cavassa – ou rua do porto – no início dos anos 80

Foto: Cecilia Lucchese

rua manoel cavassa otavio netoRua Manoel Cavassa – rua do porto – veja o casario neo-clássico

foto de Otávio Neto

vista da Manuel CavassaOutra vista da Manuel Cavassa – 1982

Foto Cecilia Lucchese

escadaria que liga a parte alta da cidade ao PortoEscadaria que liga a Avenida Marechal Rondon à Ladeira José Bonifácio

foto Cecilia Lucchese

rua que faz a ligação entre a cidade baixa e a altaRua que faz a ligação entre a cidade baixa e a alta

Foto Cecilia Lucchese

vista da rua do porto a partir da parte altaVista do Porto a partir da cidade alta

Foto Cecilia Lucchese

muro da cidadeNo final da Rua Cruz e Souza havia esse muro à esquerda, que falavam ser resto do muro que cercou a cidade durante a Guerra do Paraguai.

Nunca pesquisei sobre isso, mas para mim parecia mais ruina de uma casa que ali estivera em algum momento.

Foto: Cecilia Lucchese – 1982

Três casas são para mim especiais e mereciam ser integramente preservadas. A primeira delas, no meio da Manuel Cavassa, de frente para o porto, foi a Casa Comercial Wanderley & Baís.

casa wanderley e bais salvador pereiraCasa Wanderley & Baís

foto de Fernando Pereira

Como vocês podem ver a Casa Wanderley & Baís está agora restaurada (Programa Monumenta – IPHAN) e linda. Agora é o Museu da História do Pantanal. Mas eu a conheci nos anos 80, quando era um cortiço, suas paredes estavam ficando enegrecidas pelo carvão que queimava nos fogareiros dos moradores.

A Casa Wanderley & Baís, uma das casas comerciais mais ricas da cidade no início do século XX, foi anos mais tarde desapropriada pelo Governo do Estado, e lá funcionou a sede da Comissão Mista Brasil Paraguai, que pretendia construir uma ferrovia que ligaria o Atlântico ao Pacífico. Depois disso ela ficou abandonada, e foi ocupada por pescadores e ribeirinhos, sem que o governo impedisse, e por muitos anos ficou abandonada, numa vizinhança que nos anos 80 era muito degradado. Nessa época realizei uma pesquisa sobre essas casas, e fico feliz em vê-la tão bem conservada, mas não sei o que aconteceu nos anos seguintes, faz mais de 20 anos que não vou à Corumbá.

Veja as fotos da casa nos anos 80!

ScannedImage-18Nessa montagem de fotos, você vê a casa como eu a conheci, com varal para roupas na sacada

Foto Cecilia Lucchese

A casa tem 3 andares na frente e mais um andar na parte de trás, ocupando só a 1/2 do fundo da construção.

No térro funcionava a casa comercial, havia uma linda divisória de ferro fundido que dividia o salão da escada reta que levava ao 1º andar. Essa divisória ficava entre a última porta da esquerda e a seguinte.

W&B divisória de ferro da escadadivisória de ferro fundido – ao fundo a escada de ferro

Foto Cecilia Lucchese – 1982

Veja detalhes de como era essa escada!

wanderley e baisA escada como eu a conheci, faltando peças e muito mal conservada

Foto Cecilia Lucchese

wanderley e bais2Detalhe do espelho dessa escada

Foto Cecilia Lucchese

Nesse andar térreo ainda tinha um elevador hidráulico (desmontado quando estive lá) que levava ao 2º andar, onde morava o proprietário.

No 2º andar havia um salão central – a sala de visitas – para a qual se abriam portas das laterais, que levavam ao quartos/alcovas que ocupavam as laterais do 2º andar do edifício.

No fundo um pateo coberto com telhas de um material translúcido, e para ele no fundo ficavam os banheiros, uns comôdos menores e uma escada em caracol, tambem art nouveau em ferro fundido, que levava ao terceiro andar.

w&b pateo internovista do pateo interno do 2º andar – veja o ladrilho hidráulico que primor!

Foto Cecilia Lucchese – 1982

W&B area usada como tanqueO balde no fundo mostra que em 82 esse páteo era usado como tanque

Foto Cecilia Lucchese – 1982

Na sala principal, nessa época, havia numa parede lateral pintado o mapa da estrada de ferro que ligaria o Brasil ao Pacífico. A foto que mostro abaixo está muito ruim, porque o salão estava dividido com madeira, cada cômodo moradia de uma família, e não consegui focar bem o estudo da ferrovia. Mas dá para ter uma idéia.

pintura estarda de ferrodesenho da ferrovia Brasil-Bolívia

Foto Cecilia Lucchese

Do 2º para o terceiro andar, tinha outra escada de ferro fundido, art-nouveau, essa em caracol.

wanderley e bais3Foto Cecilia Lucchese

wanderley e bais4detalhe do espelho

Foto Cecilia Lucchese

Outra casa que merecia ser preservada, ficava no final da Rua José Bonifácio, á direita de quem olha a cidade do rio, ela foi construída pelo arquiteto italiano Martino Santa Lucci e foi restaurada pelo Programa Monumenta, do Ministério da Cultura, e possui muitos elementos art-nouveau. É a Casa Vasquez & Irmãos. Nela está programada a instalação do Museu Memória do Pantaneiro.

casa vasquez 2005Casa Vasquez em 2005 – desapropriada pelo Programa Monumenta

foto de Tiago L. Ramires

casa vasquez a noiteUma foto impressionista da Casa Vasquez a noite – restaurada pelo Programa Monumenta?

foto de 2007 de Bolivar Porto

Quando a conheci a casa estava fechada há anos. Morava lá só o zelador com sua família, que me deixou entrar na casa para fotografá-la.

manoel cavassa e csa vasquezRua Manoel Cavassa a frente, no fundo a Rua José Bonifácio e no largo dessa rua a Casa Vasquez e Irmãos

Foto Cecilia Lucchese: 1982

vista da fachada vasquezUma vista mais próxima da fachada – 1982

Foto: Cecilia Lucchese

A Casa Vasquez, no andar térreo era um grande salão aberto, de pé-direito duplo, com um mesanino em uma das laterais, uma escada de madeira, que levava ao 2º andar, e uma divisória de madeira art-nouveu, provavelmente onde funcionava o Caixa da Casa Comissária. Os pilares são metálicos, estrutura independente, e fechamento com tijolo, elemento de construção não existente na região à época.

porta casa vasquezPorta lateral na fachada – com trabalho art-nouveau

Foto: Cecilia Lucchese

porta lateral vasquezportas de 4 folhas da fachada

Foto: Cecilia Lucchese

porta priniciapl vazquesdetalhe do entalhe de madeira da porta de 4 folhas

Foto Cecilia Lucchese

porta da frente lateral vasquezdetalhe da porta de 2 folhas

Foto Cecilia Lucchese

escada principal vasquezEscada principal

Foto de 1984 de Cecília Lucchese

divisórias de madeira vasquezbalaustre do fechamento da escada no 2º andar, no salão principal

Foto Cecilia Lucchese

divisória do escritórioDivisória em madeira no andar térreo – casa Comissária

Foto Cecilia Lucchese

detalhe telhado vasquezdetalhe da laje – 1º piso – vigas metálicas e fechamento com tijolos

Foto Cecilia Lucchese

entrepisodetalhe construtivo dos entrepisos encontrados no casario de Corumbá – o da esquerda corresponde ao da Casa Vasquez

Desenho Cecilia Lucchese

ladrilho vasquez 3Piso em ladrilho hidráulico

Foto Cecilia Lucchese

No pavimento superior havia um salão central com portas dando para as laterais, onde ficavam os cômodos, possívelmente quartos. No fundo uma área de serviço e uma sala de banhos.

vista da sacada a partir do 2º andar vasquezVista da sacada a partir do salão central

Foto Cecilia Lucchese

bandeira da porta janela sacadadetalhe externo da bandeira da porta janela da sacada

Foto Cecilia Lucchese

detalhe da fachada vasquezDetalhe da fachada da casa Vasquez a partir da sacada do 2º piso

Foto Cecilia Lucchese

ladrilho vasquesLadrilho hidráulico – 2º piso

Foto Cecilia Lucchese

ladrilho vasques2Outro ladrilho hidráulico da casa Vasquez

Foto Cecilia Lucchese

pintura porta interna vasquezPintura na parede, no entorno de porta interna no salão

Foto Cecilia Lucchese

vasquez pintura tetoPintura no teto de um dos “quartos” do 2º andar

Foto Cecilia Lucchese

vasquez alvenaria de tijolosVista da alvenaria de tijolo – parede externa – 2º andar

Foto Cecilia Lucchese

banheiro vasquezSala de Banho – Veja não havia encanamento interno

Foto Cecilia Lucchese

pedra banheiro vasquezParede de pedra na sala de banho o que sinaliza que este comôdo não faz parte do projeto original

Foto Cecilia Lucchese

A laje de cobertura do 2º andar (só a parte da frente chega ao 3º piso) era reta, sem telhado e impermeabilizada com betume. Veja abaixo o corte dessa laje.

lajedesenho Cecilia Lucchese

Veja o vídeo da proposta arquitetônica para o Memorial do Pantaneiro

A outra casa que eu acho que deveria ser preservada era onde funcionava a Fábrica de Gelo, no Beco da Candelária. Mas pelo que soube ela está em completa ruina.

Veja a foto que encontrei no Panoramio do estado atual da Fábrica

ruinas antiga fabrica de geloFoto de Filipes de Sousa

A Fábrica de Gelo é um edificio construído numa encosta em patamares. Com estrutura metálica e alvenaria de pedra, é o único edifício no Brasil que conheço que agrega esse método comstrutivo. Quando o conheci em 82, o edifício já estava abandonado e meio em ruinas, e sua beleza, de villa italiana, me entusiasmou. Veja as fotos:

outra vista parte superior casa de geloVista do Beco da Candelária, na sua parte mais alta

Foto Cecilia Lucchese

Rua Cruz e SouzaOutra vista do Beco da Candelária, agora olhando de baixo para cima

Foto Cecilia Lucchese

A Fábrica de gelo é o edifício argamassado, do meio, mas na época não dava para saber até onde ele ia, pois a partir dele até a parte mais alta tudo estava em ruinas. A entrada principal me lembrou uma villa italiana.

entrada principal fabrica de geloMontage de fotos mostrando a entrada principal da Fábrica de Gelo

Foto Cecilia Lucchese 1984

ruinas da fabrica de geloVeja a situação do edifício naquela época

Foto Cecilia Lucchese

casa de gelo interiorinterior da Fábrica de Gelo em 1984

Foto Cecília Lucchese

Mas o casario do cais do porto de Corumbá é todo ele muito bonito, merece ser preservado, ter suas fachadas limpas com restrições para colocação de anúncios, etc. Abaixo mais algumas fotos dos anos 80

casa na Manuel cavassaCasa na Manuel Cavassa

foto Cecilia Lucchese

casa na Manuel cavassa2Casa na Manuel Cavassa

Foto Cecilia Lucchese

cruz e souzaVista da Rua Cruz e Souza

Foto Cecilia Lucchese

outra casa na MCOutra casa da Manuel Cavassa

Foto de Cecilia Lucchese

De uma forma geral as outras casas são muito semelhantes. As de 2 pavimentos, tinham a loja no térreo e moradia no andar de cima. Veja a planta de uma delas.

planta de uma casa corumba

Desenho Cecilia Lucchese

As casas de 1 pavimento eram somente comerciais. Veja a planta de uma delas.

planta terreoDesenho Cecília Lucchese

Este levantamento foi feito nos anos 80 e tinha como objetivo virar uma dissertação de mestrado na FAUUSP. Não foi o que aconteceu, e o material é inédito até hoje, o que é uma pena, pois custou muito trabalho a mim e aos meus queridos alunos do antigo CESUP. Obrigada Eluisa, Neila, Cacá, Katsuren, Paulo, e tantos outros que já não lembro o nome….

15 pensamentos sobre “Patrimônio Histórico – a cidade de Corumbá – MS – Brasil

  1. Realmente muito bonito, parabéns pelo cuidado com a terra natal de vocês

  2. Você pode nos informar o nome da tese de doutorado ou o autor? Grata, Cecilia

  3. em corumba existem varias construções antigas. Existe um tese de doutorado com tres volumes sobre historia em que um é dedicado somente para as construções historicas de nossa região.

  4. Corumbá destes meus sonhos – E dos meus primeiros dias – Ainda sinto o calor – Como um raio de saudade – dentro do meu coração
    Corumbá! Eu quero ter – Sob teu céu tão risonho – Feliz viver!

    Um dôce para quem é jovem e saiba o que são esses versos.

  5. Imagina se no Brasil fizessem mais filmes com sua história. Tipo Coração Valente, Canudos, La Marca… Desse enfase a sua História. Corumbá teria roteiro pra todo tipo: Ação: Guerra do Paraguai; Drama: sua fundação desde o inicio, geológica: com tantos achados geológicos: seria digno de um 10.000 AC; Amor, comédia… e por ai vai.

  6. Registro sensacional, voltei à minha infância, quando perambulei por cada um desses lugares e desvendei outros muitos segredos das casas antigas de minha terra natal. Fiquei emocionado!

  7. Prezada Cecilia Luchese,

    Achei fantastica esta sua divulgacao do patrimonio historico de Corumba’. Sou arquiteta gaucha, trabalhando atualmente no exterior e nao fazia ideia que Corumba’ tinha esta colecao de PRECIOSIDADES. Precisamos divulgar mais estas restauracoes para conseguir resgatar mais predios.
    Na Europa principalmente e tantos outros paises do mundo, predios restaurados desta natureza sao fontes de captacao de turismo, locais para atelier de artistas e de moda, lojas de grife, bibliotecas, clubes sociais, hoteis, escrirtorios e tambem para uso residencial.
    Apesar de se ver algumas restauracoes aqui e ali, precisamos despertar mais consciencia da populacao para a apreciacao destes valorosos predios. Os brasleiros precisam aprender a reavaliar seus valores. Governantes e empresarios tambem poderiam investir mais recursos para preservar e fazer uso destes espacos no Brasil.
    Valorizar o patrimonio historico e’ valorizar nossas origens e manter nossa historia viva como referencia de aprendizado para o futuro. Abracos com cumprimentos.

  8. Cidade Branca é Corumbá, melhor não a nem cá nem lá! ;D

    Realmente essa cidade é riquíssima em história brasileira e tem uma identidade cultural muito forte e importante para esse pais.

    ALA…VOTI…

  9. Realmente muito lindo o patrimônio de Corumbá. Muitos elementos art nouveau e cada ladrilho hidráulico… Esses pisos duram a vida toda se bem conservados. E é muito importante esse trabalho de levantamento do patrimônio!

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