belterra nucleo 5 cas pref

Belterra – a company town de Henry Ford na Amazônia


vista geral de belterra

google earth

Com a expansão do comércio da borracha, por volta de 1840, iniciou-se uma nova fase de ocupação da Amazônia. Por causa da grande procura pelas seringueiras quase toda a região foi explorada. A origem do município de Belterra está intimamente ligada a essa época.  Henry Ford, dono da Ford Motors, queria transformar mais um dos seus sonhos em realidade. O objetivo do dono da Companhia Ford, líder na indústria automobilística nos Estados Unidos, era implantar um cultivo racional de seringueiras na Amazônia, transformando-a na maior produtora de borracha natural do mundo. Para isso ele criou no Estado do Pará, uma company town.

vista do núcleo 5

google earth

Técnicos da Holanda e EUA iniciaram intensas investigações para encontrar uma área que fosse ideal para o projeto. O local escolhido foi  uma planície elevada às margens do Rio Tapajós, coberta por densa floresta. A essa área Ford chamou de ‘Bela Terra’, que depois passou a ser chamada de ‘Belterra’. A partir daí, o projeto começava a se tornar realidade, e Belterra ficou conhecida como “a cidade americana no coração da Amazônia”.

Casa no Núcleo 1 – as casas são de diferentes tipologias e se relacionavam ao cargo do empregado

Foto Cecilia Lucchese

Outra casa do Núcleo 1 – à esquerda um jambeiro

Foto Cecilia Lucchese

Conjunto de casas do núcleo 1

O projeto teve início e foi implantada uma estrutura urbana completa: hospital, escolas, casas no estilo americano, mercearias, portos próximos à praia foram construídos para abrigar as famílias de todos os empregados que estavam trabalhando no projeto. Grande parte dos trabalhadores braçais vinha do sertão nordestino, fugindo da seca. A construção de toda uma estrutura urbana como essa, de propriedade de uma única empresa para abrigar seus empregados, é o que é denominado hoje em urbanismo de “company town”.

escola em antiga casa de administrador ao redor da Praça do núcleo 1

Foto Cecilia Lucchese

Praça do núcleo 1

Foto Cecilia Lucchese

Igreja Católica do núcleo 1

Foto Cecilia Lucchese

Foto Cecília Lucchese

Belterra – outra casa no núcleo 1

Foto Cecilia Lucchese

Em cinco anos, o projeto ganhou dimensões incomuns para a região naquela época: campos de atletismo, lojas, prédios de recreação, clube de sinuca, cinema. De 1938 a 1940, Belterra viveu o seu período áureo e foi considerado o maior produtor individual de seringa do mundo. No entanto, o final da 2ª Guerra Mundial, a morte do filho de Henry Ford, a grande incidência de doenças nos seringais e, principalmente, a descoberta da borracha sintética na Malásia foram fulminantes para a decadência do projeto em Belterra. A partir daí, a área foi negociada com o Governo Brasileiro e Ford abandonou a cidade.

Belterra – antigo armazém – Núcleo 2

Foto Cecília Lucchese

casas geminadas do núcleo 2

Foto Cecilia Lucchese

outra casa do Núcleo 2

Foto Cecilia Lucchese

Durante 39 anos, Belterra foi esquecida e a “cidade americana” foi transformada, entre outras denominações, em Estabelecimento Rural do Tapajós (ERT), ficando sob jurisdição do Ministério da Agricultura. Somente em 1997, os moradores de Belterra conseguiram a emancipação do município. Hoje a cidade vive da agricultura e é local de moradia dos antigos funcionários da empresa, transformados em funcionários públicos quando o Governo comprou a cidade, e aposentados, vivem ainda no local. A cidade acabou de aprovar seu plano diretor, e as casas maiores, antigas residências das chefias, transformaram-se em sedes das secretarias municipais.

algumas seringueiras que ainda restam em Belterra

Foto Cecilia Lucchese

Conjunto de casas do Núcleo 5

Foto Cecilia Lucchese

Belterra – casa do núcleo 5

Foto Cecília Lucchese

Outra casa geminada, essa do núcleo 5

Foto Cecília Lucchese

Edifício da antiga administração – hoje fechado

Foto Cecília Lucchese

A cidade é dividida em vários núcleos, como o objetivo era explorar a seringa, pequenos agrupamentos de casas ficavam cercadas pelos seringais, e o núcleo maior, hoje centro da cidade, é o núcleo 5, que concentra o pequenos comércio da cidade, e onde estão as casas melhor conservadas. Visitei a cidade numa tarde de verão e calor, poucas pessoas eram vistas nas ruas, talvez por esse motivo, talvez pela cidade ser de aposentados. Hoje as seringueiras praticamente desapareceram, substituídas por árvores frutíferas (como os maravilhosos jambeiros) e jardins floridos e bem cuidados.

área comercial do núcleo 5

Foto Cecília Lucchese

Igreja Batista, que fica de um dos lados da praça do núcleo 5

Foto Cecília Lucchese

Praça do Núcleo 5 – com seringueiras

Foto Cecília Lucchese

Igreja Matriz, do outro lado da praça – núcleo 5

Foto Cecília Lucchese

Casa do núcleo 5

Foto Cecilia Lucchese

Casa do núcleo 5 – a casa tinha originalmente uma sala, 2 quartos com banheiro e uma cozinha

Foto Cecília Lucchese

Casa núcleo 5

Foto Cecília Lucchese

a cidade dispunha de sistema de proteção contra incêndios

Foto Cecilia Lucchese

veja os bancos de madeira para as conversas ao entardecer

Foto Cecilia Lucchese

Casa dos administradores hoje ocupada pela Prefeitura

Foto Cecília Lucchese

outra casa dos administradores americanos da empresa

Foto Cecília Lucchese

19 pensamentos sobre “Belterra – a company town de Henry Ford na Amazônia

  1. Minha velha casa, onde nasci e cresci. Saí de minha Belterra aos 19 anos de vida, em 1967. Minha primeira profissão: SERINGUEIRO!
    Hoje moro em Sorocaba, São Paulo. Tudo de Belterra me faz um homem maduro, trabalhador e pai de uma família de oito filhos, todos pais de família, e responsáveis. Menciono Belterra, porque foi onde recebi formação rígida para ser uma pessoa séria em todas as áreas, através de minhas ótimas professoras, num tempo em que professor era visto como autoridade!
    Minha mãe (que já partiu para estar com Deus) foi mulher de fibra. Morávamos na Estrada 8, próximo ao CORAÇÃO, local onde ficava o centro comercial, igreja, escola, creche e campo de futebol do SANTA CRUZ.
    Minha mãe: CORA CARDOSO DE MELO
    Meu pai: GABRIEL CEZAR REVORÊDO, TAMBÉM JÁ FALECIDO.

    BELTERRA, minha velha casa! Te amarei sempre a despeito da distância. Foi em ti que experimentei o sabor de conhecer as mais lindas jovens, sofridas mas cheias de sonhos de dias melhores. Saudades, saudades, muitas saudades. UM BEIJO PRA VOCÊ, MINHA BELTERRA.

  2. Para Nelson Garcia de Paiva:
    Nelson, eu também sou neta de Manoel Garcia de Paiva. Minha avó por parte de pai é natural de Belterra, assim como meu pai.
    Hoje, meu pai Eduardo e minha tia Virginia – filhos de Manoel moram em Manaus, AM.
    Se você receber essa mensagem, entre em contato comigo pelo meu email: mayarapaiva@hotmail.com
    Abraço!

  3. tenho 14 anos morei na cidade ate os 6 anos de idade hoje moro em santarem mas sempre que posso volto as minhas origens, gostei muito do que vc postou sobre a cidade. e tenho parentes na cidade sei a historia da cidade de cor e saltiado, assim como conheço a cidade como a palma da minha mao. gostaria que vc publicasse coisas mais recentes da cidade. bjos muitos bjos!!!!

  4. Meu avô ,por parte de pai , chamava-se Manoel Garcia de Paiva e foi o administrador desse empreendimento . Gostaria de obter o máximo de informações sobre ele . Meu pai ( filho dele ) tem 82 anos e acho que ficaria muito feliz em saber mais sobre o pai dele uma vez que meu avô partiu quando ele ainda era muito novo e morava em BH .
    Se alguem tiver noticias / histórias ficaria muito contente em recebe-las.

    Um abraço

    Nelson Paiva

  5. É uma maravilha a cidade de Belterra, principalmente os imóveis deixados pelo Magnata Henry Ford. Nesta sessão de fotos algumas estão descritas erradas. Não deixa de ser relíquias estes imóveis. Quem reside em um deles, deve preservar pois se percebe a beleza ainda bem nítida

  6. Cecília,
    Parabéns, excelentes imagens e pra mim, informações que eu desconhecia.
    Na última revista “superinteressante” há uma materia pequenininha (como é bem o jeito da revista) sobre empreendimentos na amazônia, e cita a Fordlândia, pois o foco da reportagem é justamente o fracasso.

  7. Oi. Meus pais mudaram-se para Belterra há uns 8 anos… trata-se de uma das regiões mais fantásticas da Amazônia. Estou indo passar o ano novo lá (2010)….a mala está pronta!
    Parabéns pelas informações e fotos!
    Abraços.
    Alexandre Panosso

  8. Cecilia,ha exatos 35 anos atrás,nasceu meu filho nesse paraiso,que é Belterra!Eu morava em Santarém,fui visitar uma amiga,e aproveitei pra me consultar com um medico que estava famoso pelo atendimento em Belterra.Foi providencial aquela consulta,pois ele me tranquilizou em relação a gravidez complicada que estava tendo e passou a ser meu médico….o resto desta historia se quiser saber,entre em contato comigo pelo meu email.Só mais um detalhe:sou paulista e estava morando no Pará nessa epoca.Um grande abraço…………

    MARIA EDNA

  9. Eu Nasci nesta cidade e nunca tive a oportunidade de saber como ela é!!

    De certa forma obrigado!!!

  10. Lela a Fordlândia foi outro empreendimento também na Amazônia, nas proximidades de Belterra, e que de fato fracassou. Belterra teve mais sorte, até a borracha da Malásia ganhar o mercado. Estou colando aqui o link para a matéria da Revista Fapesp para quem quiser ler a reportagem que você cita: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3822&bd=1&pg=1

  11. Saiu uma materia de capa da revista da Fapesp sobre a Fordlândia. Como a história registra um empreendimento fracassado fiquei surpresa de ver a cidade bem conservada. Quase inacreditável.
    Interessante também a diversidade de tipologias das casas e de serviços comunitários. Lela

  12. Na verdade a partir de Santarém. Belterra fica a 30 km de Santarém, e pode ser acessada pela Rodovia Santarém-Cuiabá. Mas chegar à Santarém foi via Brasília e Manaus.

  13. Gostei da descrição , ja li a respeito mas fotos recentes são bem legais.

    Como voce foi até lá, à partir de Manaus ou Belém ??

    AC

  14. Acho que sua viagem valeu, a última notícia que tive de Belterra, era a de uma cidade fantasma. Fico feliz em saber que tem gente aproveitando isso.
    Beijos

  15. Adorei,já havia lido sobre esse projeto desenvolvido por Ford, mas
    não tive a oportunidade fantástica que voçe teve. Parabens
    beijos,
    Edson

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