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Árvores e Cidades


Este verão, onde tivemos algumas chuvas torrenciais aqui em São Paulo, moradores tiveram problemas pelo grande número de árvores que caíram. Corte de energia, semáforos apagados, ruas com tráfego interrompido, carros destruídos.

Apesar da Prefeitura manter um serviço regular de retirada de árvores com pouca sanidade e sujeitas a quedas, algumas outras medidas precisam ser tomadas, porque o reflorestamento urbano, a arborização de ruas , de espaços públicos e privados, precisa ter continuidade, uma vez que esta pode ajudar a melhorar o micro-clima de nossas cidades, e evitar aquilo que é conhecido como “ilha de calor”.

Tem-se falado em enterrar a fiação da cidade, o que seria uma boa medida para que se evitasse a queda de fios e interrupções de energia, mas o que faremos em relação às árvores que estão plantadas com pouquíssimo espaço para aeração de suas raízes, com as calçadas estreitas, onde temos que escolher em dar passagens às pessoas ou em plantar árvores, e mesmo com os loteamentos onde lotes tem 5 metros de frente, suficientes para permitir a entrada de um carro, mas que com essas garagens e guias rebaixadas numa sequencia interminável, não sobra “frente” para o plantio de árvores.

Bairro do Tremembé - São Paulo  Foto de Cecilia Lucchese (2012)

Bairro do Tremembé – São Paulo
Foto de Cecilia Lucchese (2012)

Como mudar a paisagem árida dos loteamentos periféricos de São Paulo? Como aumentar a arborização das nossas cidades de forma a que elas cresçam e permaneçam saudáveis? Como transformar paisagens cinzas em paisagens verdes? Temos algumas dicas a seguir.

Pesquisando outro dia na web achei uma publicação da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), cujo número 155 trata somente do reflorestamento urbano, ou melhor, da arborização urbana. Apesar do texto ser antigo, dos anos 90, me chamou atenção um artigo de Farhana Haque, que nos conta como é o reflorestamento urbano e agrícola em 13 cidades pelo mundo.

Nos casos que ela traz, temos situações muito diferentes. Por exemplo, temos as cidades de Debre Birhan (Etiópia) e Kampala (Uganda), em países pobres da África, onde é realizado um grande reflorestamento de eucaliptos, mas nessas duas cidades a criação de florestas tem como objetivo direto a produção de lenha, uma vez que essa é a única forma barata de energia disponível, inclusive para a preparação da comida. Em Debre Birhan, naquela época, o plantio de eucaliptos avançava rapidamente sobre as terras agriculturáveis, prejudicando a produção de alimentos.

Debre Birhan foto de garymeld no Panoramio

Debre Birhan
foto de garymeld no Panoramio

Já, Bruxelas, na Bélgica, tem o jardim público mais antigo da Europa, a Floresta de Soignes, cujas aleias criadas próximas às antigas portas da cidade, para que os moradores fizessem seus passeios, são de 1840. Em 1843 uma parte dessa floresta foi vendida, mas o restante foi mantido intacto até hoje, e é um jardim público de quase 2 séculos.

Floresta de Soignes - Bruxelas - Bélgica

Floresta de Soignes – Bruxelas – Bélgica

O artigo fala também da cidade de Milton Keynes, uma cidade nova inglesa que foi construída nos anos 60, e planejada para ser uma cidade verde, assim com Brasília. Ela tem 3 parques naturais, o maior com cerca de 40 hectares e o menor com 20, 1.200 hectares de parques lineares e ainda 22 pequenos bosques.

Enquanto essas cidades que citei até aqui tem um número expressivo de parques e árvores, por terem sido conservados ou por terem sido plantados com objetivos diferentes, o mais importante no artigo, a meu ver, são as dicas que elas nos dá sobre as estratégias e políticas para arborizar cidades.

Temos a necessidade de nossa participação enquanto indivíduos ou associações civis ou comunitárias nas políticas de arborização, no plantio e na conservação das espécies. Exemplos que ela nos dá é da Associação Pro-Ecologia de Colima, uma cidade mexicana na costa do Pacífico, que fundada em 1963, conseguiu em 1985 publicar um manual para plantio e manejo de espécies adequadas as condições locais e a arborização urbana. Essa publicação teve um grande impacto político e educacional, levando à arborização da cidade. Também em Pequim, na China, fruto de uma tradição milenar de construção de jardins urbanos, a plantação de árvores é um trabalho de todos, levando a que nos anos 80 o governo criasse um slogan “Plantação nos 4 pontos cardeais”, que incentivava o plantio de árvores nas moradias, nas cidades, ao longo das estradas, dos rios e canais, tanto para fins econômicos como para o embelezamento estético.

Em Tachkent, capital do Ubezquistão, antiga União Soviética, utilizam-se espécies frutíferas para o plantio em ruas, jardins e parques públicos, que garantem colorido na época das floradas e alimento para pássaros e pessoas. Usam uma diversidade de árvores, como espécies vidas de várias partes do mundo, e sob a fiação telefônica foram plantadas espécies apropriadas, de crescimento muito lento.

Tachkent - Ubezquistão

Tachkent – Ubezquistão

Yokoama, no Japão, possuía em 1980, 1209 parques, e 4.500 hectares de vegetação no entorno da cidade. Isso devido a uma política implantada em 1980, com a elaboração de um plano diretor de espaços verdes. Nele se propôs a proteção e a expansão das zonas verdes na periferia da cidade, o planejamento de parques urbanos, o desenvolvimento de agricultura e de arborização urbana e a proteção de “árvores ilustres”, além da meta de se plantar na cidade 10 milhões de árvores até o ano 2.000. Quantas cidades no Brasil tem um plano diretor de espaço verdes ou mesmo um plano de arborização urbana. Não está na hora de planejar essas ações?

Se o plano de Yokoama é admirável, muito mais interessante, porque mais próximo de nossa realidade, é a proposta da cidade de Singapura.

Ela, que teve um crescimento populacional enorme nos anos 60, desenvolveu ainda nesses anos uma política para transformar a cidade e seu centro comercial e turístico numa cidade verde, uma metrópole verde. Para isso estabeleceu dois programas públicos, um de “aeração” e outro de “texturas verdes”.

O “programa de aeração” tinha como objetivo melhorar a respiração das raízes das árvores, e transformou a antiga norma de se conservar livre 1,3 m² de área no entorno dos troncos das árvores para o mínimo de 16 m². Isso em espaços públicos. Também obrigou que os espaços públicos tivessem entre 30 a 40% de sua superfície arborizada. Dentro desse programa instituiu ainda normas para a arborização dos canteiros centrais das grandes avenidas.

Já o “programa de texturas verdes” propôs que se utilizasse vegetação rasteira e “aderente” para camuflar o concreto das construções, muros de divisa, muros de contenção, pontes, etc. Também as espécies plantadas sobre vias elevadas ou pontes são adaptadas para viver sem luz, e, ao contrário das nossas poucas tentativas de humanizar baixios de viadutos, eles instalam nesses canteiros sistemas de irrigação artificial. Nos locais onde não é possível plantar árvores foi incentivado o uso dessas plantas e de trepadeiras. Fico pensando como isso poderia mudar a nossa paisagem dos loteamentos periféricos e favelas.

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As imagens acima são de Singapura

Exemplos interessantes! São propostas inovadoras e que podem ser aproveitadas por nós e pelas nossas prefeituras. Li, faz alguns dias no facebook, a postagem de um grupo exigindo um número x de m² de hortas comunitárias nos bairros da cidade de São Paulo. Proposta para o Plano Diretor que está sendo revisto. Não acredito que essa proposta seja factível, mesmo porque para termos hortas comunitárias é necessário termos comunidades. pessoas, que se dispõem a plantar e a cuidar de plantações conjuntamente. Acho que pode haver alguns grupos interessados, e onde houver, é importante que se disponibilize terrenos para que isso ocorra, afinal temos tantas “sobras” de obras viárias pavimentadas ou sem nenhum uso.

Mas acredito que os exemplos de outras cidades, e principalmente de Singapura, podem nos ajudar a pensar como fazer de São Paulo (e de outras cidades brasileiras) uma cidade mais verde, e por isso mais sustentável.

 

5 pensamentos sobre “Árvores e Cidades

  1. Olá Cecília, muito obrigado pelo blog! Como muitos outros seguidores, não sou arquiteto nem urbanista, mas adoro os assuntos que você aborda e a forma como o faz (seja na versão anterior, seja nessa nova).
    Bem, iniciativas, vez por outra, aparecem … mas não têm continuidade. Eu me lembro de duas: na cidade de São Paulo, o projeto Belezura, da administração de Marta Suplicy. Ok, não era exatamente um projeto ambicioso de arborização, mas tinha alguns aspectos interessantes (pelo menos o de tornar menos árida a paisagem das margens do rio Pinheiros); naturalmente, como não raro acontece nas mudanças administrativas, o projeto foi abandonado (embora ainda se possa encontrar alguns resquícios do pouco que se fez à época). Houve também um outro projeto, neste caso de arborização do canteiro central da Rodovia dos Bandeirantes (foi uma parceria do governo de São Paulo com o Banco Real, salvo engano). Estava indo bem, até ser abandonado. Seja como for, quando viajo a Campinas vejo que algumas árvores realmente sobreviveram e, onde isso ocorreu, parece que temos um oásis em meio ao deserto. Eu sempre fico na expectativa de chegar nesses pontos da rodovia para admirar essas sobreviventes … são lindas!

  2. Selma acho muito legal algumas iniciativas em loteamentos novos que tentam fazer reaproveitamento da água, ou mesmo uso de energia solar, etc. Mas ainda temos que avançar muito nisso!
    Acho que a estrutura da “árvore” é metálica, mas não tenho certeza. Vou pesquisar. O blog é para todo mundo, não para especialistas, portanto continue lendo e comentando, eu voubadorar. Beijos.

  3. Cica sempre leio tudo que voce posta. Coisas interessantes mas que sabemos de difícil execucao por causa de políticas (e aqui acho que nenhum partido faz sua parte quando está no governo, o que é muito frustante) e burocracias da nossa sociedade. Iniciativas particulares acontecem o que creio seja um comeco. Aqui onde moro achei interessante a iniciativa do loteador colocar no regulamento de construcao um sistema de captacao de água de chuva e água quando se lava o quintal. Esta vai para um filtro de várias camadas de pedras e areia e dai volta para o lencol freático. É pouco, mas acho que já é um comeco… Uma pergunta: voce sabe do que é feita a estrutura das “árvores”? Desculpe me intrometer num assunto do qual sou totalmente leiga. Beijos.

  4. Pois é, Emerson, falta de fato planejar, mas acima de tudo agir. Achei que a foto da árvore “artificial” de Singapura era um bom exemplo do que eles estão fazendo por lá. Muito legal, não é. E fico feliz que vc gostou no novo jeitão do Blog? Volte sempre!

  5. Como já é de costume, planejamento é o que falta também nesse caso. E que legal essa estrutura da foto capa do post, em Singapura, pelo que eu entendi parece ser uma “árvore artificial” que serve de apoio para outras plantas trepadeiras, é isso mesmo? Realmente muito bonito!
    E o novo layout do blog também está ficando muito bom!

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