Maquete da Cidade Jardim Eldorado
Fonte: Rev. Arquitetura e Engenharia

A Cidade dos Modernos – Sérgio Bernardes e a Cidade Jardim Eldorado


Nos anos 1950 os arquitetos modernos brasileiros desenvolveram mais do que arquitetura: desenvolveram projetos urbanísticos para novos bairros e cidades novas, alguns deles poucos conhecidos. É o caso do projeto de Sérgio Bernardes para uma área de propriedade da Compax – Importação, Exportação e Vendas S.A., localizada no município de Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte, MG.

Maquete da Cidade Jardim Eldorado Fonte: Rev. Arquitetura e Engenharia

Maquete da Cidade Jardim Eldorado
Fonte: Rev. Arquitetura e Engenharia

O projeto foi publicado no número 31 da Revista Arquitetura e Engenharia em 1954, e foi através dela que eu tomei conhecimento dele. Ainda que Sérgio Bernardes tenha desenvolvido projetos arquitetônicos com afinidade com o que ficou conhecido como arquitetura modernista ou funcionalista, e tenha trabalhado no inicio de sua carreira profissional com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, o urbanismo defendido por Le Corbusier nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna ainda era pouco conhecido dos arquitetos brasileiros nos anos 50.

A introdução do modelo cidade-jardim no Brasil aconteceu através do trabalho de Barry Parker, contratado pela Companhia City of São Paulo Improvements and Freehold Company Ltd, e que projetou na cidade de São Paulo o Jardim América e o Pacaembu, entre 1917 e 1919. Nessa época estagiou no escritório da City o engenheiro Jorge de Macedo Vieira, que posteriormente projetou bairros e cidades novas com essa concepção. É o caso do Jardim da Saúde, bairro da cidade de São Paulo e das cidades de Águas de São Pedro (SP), Maringá e Cianorte (PR).

Outro profissional que contribuiu para a difusão do modelo cidade-jardim no Brasil foi Attílio Côrrea Lima, com o projeto de Goiânia. Côrrea Lima teve contato com o ideário quando fez sua pós-graduação em urbanismo em Paris. Sua tese foi uma proposta da implantação de um bairro-jardim na cidade de Niterói, ainda que nela predomine a influência do urbanismo Beaux-Arts.

Em 1930, Alfred Agache no plano desenvolvido para o Rio de Janeiro, propôs que fossem construídas duas cidades-jardim, uma na Ilha do Governador e outra em Paquetá. Nas conferências que fez no Rio, em 1927, discorreu sobre o modelo, apoiando-se em Ebenezer Howard, o criador da ideia das cidades-jardim.

Alguns bairros do Rio de Janeiro da década de 1930 também foram concebidos com inspirações nesse modelo, como é o caso do Bairro de Laranjeiras, cujo prospecto de venda o chamava de Cidade Jardim Laranjeiras. E também Giacomo Palumbo, arquiteto italiano radicado no Rio de Janeiro, desenvolveu um plano de urbanização para uma área do Recreio dos Bandeirantes – Barra da Tijuca, também uma bairro-jardim.

Em 1942, José Octacílio Saboya Ribeiro, que foi professor da Faculdade Nacional de Arquitetura, hoje FAU-UFRJ, projetou o Bairro Residencial Autônomo da Chácara do Pires em Porto Alegre com elementos do modelo cidade-jardim, bairro que depois ficou conhecido como o conjunto IAPI Passo d’Areia. Também o Parque Guinle projetado por Lucio Costa em Laranjeiras – Rio de Janeiro, e construído no início dos anos 1940 trouxe elementos paisagísticos da cidade-jardim, ainda que o traçado viário e o próprio Parque já estivessem pré-determinados.

Os elementos projetuais desse modelo eram apresentados aos alunos pelos professores da Faculdade Nacional de Arquitetura, nas décadas de 1940 e 50, e arquitetos formados por aquela escola utilizaram esses elementos em seus projetos. Esse é o caso de Sergio Bernardes, cujo projeto da Cidade Jardim Eldorado segue a concepção cidade-jardim,  e também projetos urbanísticos dos Irmãos Roberto seguiram essa tradição, como o projeto que fizeram para o concurso para a construção de Brasília.

O projeto da Cidade Jardim Eldorado de Sérgio Bernardes, compõem-se de quatro unidades de vizinhança em torno de uma praça cívica, onde deveria ser construída uma igreja e uma praça esportiva. O sistema viário foi hierarquizado em alamedas para pedestres, ruas locais e avenidas arborizadas. Em cada unidade de vizinhança foi deixado espaço para construção de uma escola, um cinema e um centro comercial. Também uma boa parte do terreno foi reservada para a instalação de áreas verdes e de recreação. Bernardes chegou a propor uma estação ferroviária para o bairro.

Planta mostrando as 4 unidades de vizinhaça e os locais destinados aos equipamentos

Planta mostrando as 4 unidades de vizinhaça e os locais destinados aos equipamentos

Para os edifícios que foram definidos pelo programa urbanístico, Sérgio Bernardes chegou a desenvolver projetos, e é interessante ver como a concepção destes representa a arquitetura moderna brasileira dos anos 50.

A escola, por exemplo, tem 11 salas de aula disposta no entorno de um pátio interno, iluminação zenital e ventilação cruzada.

Projeto da escola Fonte: Rev. Arquitetura e Engenharia

Projeto da escola
Fonte: Rev. Arquitetura e Engenharia

Duas vistas da maquete da escola

Duas vistas da maquete da escola

O edifício comercial tem cobertura apoiada em tirantes de aço, afastando-a da parede das lojas. O subsolo é destinado a carga e descarga de mercadorias, e as 22 lojas são voltadas para a parte externa. No interior foi projetado um grande lago, sendo que os dois blocos de loja seriam ligados por uma ponte.

Projeto de Centro Comercial  Fonte: Rev. Arquitetura e Engenharia

Projeto de Centro Comercial
Fonte: Rev. Arquitetura e Engenharia

Maquete do Centro Comercial

Maquete do Centro Comercial

“Atualmente, os quatro setores do bairro confundem-se em um grande aglomerado, tendo sido mantido apenas o traçado viário acompanhando a topografia do sítio. Além disto, os equipamentos públicos não seguiram o projeto original e as áreas destinadas aos mesmos foram loteadas, à exceção do quarteirão onde se localiza a igreja.” (BERNARDI, Mansueto)

Vista aérea do bairro Fonte: Google Earth

Vista aérea do bairro
Fonte: Google Earth

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