cidades-melhores11

Nós e nossas cidades


2013 foi o ano em São Paulo ( e no Brasil) em que nossa vida nas cidades entrou na agenda de todos. O exemplo mais emblemático foram as manifestações de Junho em São Paulo, cujo mote principal era o transporte público cuja tarifa tinha sido reajustada. Iniciada pelo movimento Passe Livre, que saiu em passeata e foi violentamente coibido pelas forças de segurança do Governo do Estado de São Paulo. Foi como colocar fogo em pólvora! As pessoas tomaram as ruas, em São Paulo e em outras cidades brasileiras, e se o movimento cresceu em pessoas e em pauta de reivindicação, tirando-se as daqueles que quiseram obter vantagens para os seus partidos políticos ou associações dos mais diversos tipos, o germe por trás de todas as manifestações foi o descontentamento com a vida que a grande maioria de nós leva nas cidades brasileiras.

protestoFoto na web – site: guiadoestudante.abril.com.br

E, de certa forma, estimulado por essas manifestações, espalhou-se nas redes sociais chamadas para outras mais pontuais, e nem por isso menos importantes (Minhocão, Parque Augusta), como também ideias de mudanças possíveis de serem feitas nas cidades, algumas das quais aconteceram. Refiro-me às transformações de vagas de estacionamento em “salas de estar”. Isto aconteceu no Recife, na Avenida Alfredo Lisboa, em  São Paulo, e em Fortaleza. É uma  iniciativa que surgiu em São Francisco, nos EUA, denominada parklet, e lá existe até um manual de recomendações para se fazer as transformações. A ideia, divulgada nas redes sociais, acabou se espalhando rapidamente.

Parklet-Program-mainfoto da web – site: http://www.designtendencia.com.br

Se estas reivindicações e intervenções na cidade ganharam uma divulgação mais ampla no Brasil no ano passado, elas não são bem novidade, não aqui e muito menos lá fora. Aqui os trabalhos desenvolvidos por equipes técnicas de governos, que trabalham com a melhoria da população moradora de favela e cortiços, envolvem a população que é alvo da ação, e muitas das áreas de convivência implantadas vem de projetos participativos. A novidade aqui é que parece que a iniciativa chegou à classe média.

Já nos Estados Unidos e países europeus, como Alemanha, Inglaterra, França e países baixos, que tem uma forte tradição participativa da população na gestão das cidades, as iniciativas são bem antigas, mas algumas recentes fizeram tanto sucesso, que se tornaram exemplos que são usados para tudo e por todos. É o caso da High Line, em Nova York, um parque implantado sobre uma antiga linha férrea elevada, que acompanha – ao meio às construções – parte do trajeto do rio Hudson, em Manhattan. Implantado pela associação local “Amigos da High Line“, High Line tem sido muito citado em São Paulo, quando se fala do que fazer com o elevado Costa e Silva – o Minhocão. Ainda que as realidades sejam muito diferentes para que o primeiro possa ser usado como exemplo para o segundo – a única semelhança é os dois serem elevados  –  o sucesso da iniciativa americana tem feito muito paulistano sonhar com o seu high line, relegando à escuridão e à umidade e à degradação os baixos do elevado até o findar dos tempos, por não saber que a High Line original não tem quase “baixos”, sob o viaduto ferroviário existe na maior parte do trajeto usos os mais diversos, porque ele fica confinado entre edifícios!

highline-new-york512744a74e2b7rio em seulfoto da web – site: http://www.partiranewyork.com

Outra grande inspiração quando se pensa em São Paulo vem sendo a renaturalização do rio Cheonggycheon, em Seul, na Coreia.  Quando se pensa em como melhorar o entorno do rio Tamanduateí, em São Paulo, sempre esse caso é lembrado. Menos lembrado, mas talvez não menos importante para se pensar em melhorias do entorno do rio Tietê na capital, é o exemplo de Madri, com o rio Manzanares. Renaturalização de rios, criação de parques e áreas verdes, parece ser essa a cidade que queremos agora.

Mas parece que o século XXI trouxe um profissional para a linha de frente no panorama urbano. Não, não estou falando dos analistas de sistemas, programadores de software, experts em mecatrônica ou outras tecnologias relativamente novas. Falo do urbanista. Com as pessoas cada vez mais morando em cidades (mais de 50% da população mundial mora em cidades e 75% da população brasileira) é natural que as preocupações com o urbano tragam para os holofotes da mídia os urbanistas, nos últimos anos em especial os arquitetos que desenvolvem projetos urbanísticos. As cidades precisam ficar mais humanas, e se isso passa necessariamente por políticas públicas de segurança, lazer e cultura, meio ambiente e transporte, também passa por dotar as cidades daquilo que na língua inglesa é chamado de “amenidades”, melhorias para a população, que vão desde a construção de creches e escolas, até a implantação de praças e sinalização para pedestres e deficientes físicos.

Para isso, algumas escolas que formam arquitetos urbanistas tem procurado levar os seus alunos a se envolver cada vez mais com a população, com seus anseios e necessidades urbanas.  Isso tem levado universidades estrangeiras a realizar ações em parceria com universidades brasileiras ou com o poder público, como uma série de eventos produzidos pela Universidade Federal do Recife e a Architectural Association School of Architecture e a Prefeitura do Recife.

O ano passado, a Universidade de Columbia, num evento coordenado pela professora da Universidade de Sidney Anna Rubblo, e diretora do Global Studio, realizou uma exposição itinerante com o tema “pessoas construindo cidades melhores“, que percorreu 12 cidades em 8 países. A exposição esteve no Rio de Janeiro de Março a Maio de 2013, no Studio X. A professora reuniu um grupo de estudantes de diversos países para trabalhar junto com pessoas de comunidades carentes em novas ideias para as suas cidades.

04ed560eac507a99598ce24c3699e573foto da web – site architectureau.com foto de Peter Murphy

Mas é a atividade fora das escolas que parece estar formando os futuros arquitetos urbanistas nesta nova forma de fazer cidades no Brasil, mais voluntariosa, mais espontânea, menos dependente do poder público. Tivemos também no ano passado a elaboração de planos de bairro participativos em São Paulo, para a Vila Madalena e para a Vila Pompéia, bairros de classe média. Foram criados sites para discussões públicas sobre cidades, como o site Cidade Democrática criado pelo Instituto Seva. Também o The Hub tem patrocinado varias ações participativas no Brasil.   Começou como um espaço coletivo para jovens profissionais poderem ter seu “escritório” sem terem que arcar com custos muito elevados, e hoje o The Hub – São Paulo, por exemplo, tem uma atuação mais ampla, patrocinando ações coletivas, como a transformação de vagas de estacionamento em salas de estar, por exemplo.

partners-banner-4071foto na Web – site saopaulo.impacthub.net

Já a jornalista Natália Garcia criou uma página de sucesso o “Cidades para pessoas“. Estimulada e inspirada pelo livro do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, que tem esse título, conseguiu patrocínio para visitar várias experiências urbanas desenvolvidas com consultoria do escritório desse arquiteto, e publica aquelas que acha que podem servir de exemplo para as cidades brasileiras. Com uma página no facebook, o site tem inspirado cada vez mais gente, de profissionais urbanistas a leigos.

red-abreimagem web – site cidadesparapessoas.com

Também temos tido visitas de vários especialistas estrangeiros, divulgando suas experiências com cidades mais agradáveis. Talvez o mais conhecido seja o economista e urbanista, ex-prefeito de Bogotá, na Colombia, Enrique Peñalosa, que modificou a cidade a partir principalmente da Transvia – sistema de ônibus rápido em canaletas exclusivas, que segundo ele foi inspirado na experiência de Curitiba.

imagesfoto web – site http://www.elnuevosiglo.com.co

Talvez vocês se estejam perguntando onde quero chegar com toda essa conversa! Por ser o primeiro post do ano, resolvi fazer o resumo de algo que me ocorreu no final do ano passado, e que talvez já esteja claro para todos vocês: o fato de que a grande transformação que está ocorrendo no planejamento e no projeto de espaços públicos para as cidades é a participação da população, em sua maioria de jovens, que talvez cansados de esperar ações do poder público, estão tomando a iniciativa em suas mãos. Se as iniciativas acontecem em pequena escala, elas contudo são contadas nas redes sociais e rapidamente podem se disseminar entre outros jovens e pelas cidades brasileiras. Ao perceber que essa talvez seja a grande forma de intervenção urbana, no século XXI no Brasil, vou tentar contribuir com a divulgação dessas ideias, abrindo espaço aqui para ações semelhantes que estejam ocorrendo no Brasil e no mundo.

Acredito que esse blog, ao se iniciar em 2008, já tenha trazido várias contribuições desse tipo ao conhecimento dos meus leitores. Para quem ainda não leu, dê uma passadinha pelas matérias da tag urbanismo. Mas acho que existe um espaço maior a ser aberto para esse tema. Vamos a ele em 2014! Sem esquecer algumas outras coisinhas, como lindos projetos de arquitetura, que são muitos visitados quando publicados nesse blog. :)  E estudantes de arquitetura brasileiros que tanto leem esse blog, lembrem-se que com essas matérias estou especialmente pensando em vocês.

Um ótimo e produtivo 2014 a todos!

2 pensamentos sobre “Nós e nossas cidades

  1. The Urban Earth, blog que criei no wordpress em 2007, está sendo desativado. Começo aqui uma nova trajetória para The Urban Earth em uma página no facebook, com postagens mais curtas, mais linkadas, comentários sobre fatos do dia. Você que curtiu e acompanhou o blog durante todos esses anos, vá lá curtir a página também! Eis o endereço: https:www.facebook.com/theurbanearth

  2. Bom início de atividades em 2014. Concordo que a novidade é “a participação da população (…) que talvez cansados de esperar ações do poder público, estão tomando a iniciativa em suas mãos”. E imagino até que a experiência de protagonismo vivenciada nas redes sociais, onde todo mundo pode publicar o que pensa (por pior que seja… e pasme!!! sempre tem alguém que aplaude!) tenha constribuído para isso. Há outros aspectos importantes que contribuíram para que as pessoas tenham saído às ruas, entre eles, a sensação de que as autoridades não respondem adequadamente às necessidades que saltam aos olhos de todos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s