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Sala de Leitura – A escola de Amsterdam e o Het Schip de Michel de Klerk


“O movimento moderno em arquitetura na Holanda é formado por dois grupos: Wendigen (que significa mudança) em Amsterdam e De Stijl (que significa o estilo) em Aja. Os artistas do Wendigen amavam a decoração, o detalhe caprichado, a construção diferente e não lógica. Sacrificam tudo à fachada, ao efeito pitoresco e pictorico do exterior. Os arquitetos desse grupo, denominados também de Escola de Amsterdam, são influenciados, com algumas concessões, pelo expressionismo alemão. Realizaram muitas casas unifamiliares, edifícios com longas fachadas nas ruas de Amsterdam. São experimentalistas, sua fantasia não conhece limites. ” (Theo van Doesburg)

Os outros aspectos a que é necessário recorrer para entender a arquitetura moderna holandesa são a tradição de uma arquitetura residencial, a memória de uma cultura homogênea, o componente do extremo-oriente, a presença de elementos teóricos polivalentes mas complementares entre si. E também a exigência – pela natureza e pela dimensão do país – de planejar o espaço. Como afirma Giovani Fanelli:

“a conquista do território através da criação do polder, a necessidade de orientação e sistematização do solo na cidades, a necessidade de organizar o escasso espaço no desenvolvimento dos edifícios, são todos aspectos desta desenvolvida capacidade de organizar o espaço.”

Premissa determinante ao sucesso que teve a arquitetura moderna holandesa foi a aprovação da Woningwet, a lei para a construção de edifícios habitacionais de 1901, que estabeleceu uma política social para a habitação popular. Um pouco depois, em 1910, as administrações locais passaram a ter órgãos para implantar essa política e construir edifícios habitacionais populares, e nestes órgãos colaboraram alguns dos melhores arquitetos holandeses da época, como Berlage, Dudok, Kramer, de Klerk, Oud e van Eesteren.

Plano de Amsterdam Sul BerlageProjeto de Berlage para Amsterdam Sul

imagem Wikimedia commons

A importância de Berlage não está tanto em sua contribuição para a evolução formal da arquitetura, mas sim em sua profunda cultura, um mestre de seu tempo que fez da análise da linguagem arquitetônica no edifício da Bolsa de Amsterdam uma obra didática mais do que uma bandeira estilística. No segundo período de sua carreira, após sua volta de uma viagem aos Estados Unidos (1911), Berlage intensificou sua atuação como urbanista e adotou o planejamento no desenvolvimento do projeto de um novo bairro para Amsterdam, o Amsterdam Sul (amsterdam zuid), para o qual agrupou em torno de si para o desenvolvimento dos projetos dos edifícios um considerável grupo de jovens arquitetos, que seguindo as regras colocadas por Berlage, realizaram notáveis edifícios, que passaram a caracterizar o que ficou conhecido como Escola de Amsterdam, uma intervenção habitacional formando blocos nas quadras, ocupando todo o perímetro ao longo das ruas e deixando espaços livres no interior das quadras, que formariam jardins pertencentes aos moradores de cada bloco.

Os arquitetos que trabalharam no distrito sul foram Michel de Klerk, Piet L. Kramer, Johan M. van der Mey, J. Boterenbrood, W. Lansdorp, G. J. Rutgers, Margaret Staal-Kropholler, A. J. Westerman, H. T. Wijdeveld e J. Zietsma.

Em Amsterdam Sul, Michel de Klerk, projetou em Eigen Haard o “Het Schip”, construído entre 1913 e 1920, bloco perimétrico de 2, 4 e 5 andares, com apartamentos residenciais de 2 e de 3 dormitórios, uma escola infantil e uma agência de correios, esta última transformada atualmente no Museu da Escola de Amsterdam. O material utilizado foi o tijolo, e as esquadrias, portas e janelas, são em madeira.

het shipno centro, nesta imagem do Google Earth, o Het Schip

Michel de Klerk nasceu em Amsterdam em 1884. Ele estudou arquitetura no escritório de Eduard Cuypers entre 1898 e 1910. Entre 1913 e 1923 ele pertenceu a Amsterdam School, onde teve uma posição proeminente. Sua arquitetura foi influenciada por Berlage, mas ele desenvolveu um interesse pessoal pelo movimento inglês Arts & Crafts, e sua arquitetura tem um caráter expressionista com elementos e detalhes artesanais muito ricos. De Klerk morreu em Amsterdam em 1939. O Het Schip é provavelmente um dos mais famosos edifícios da Escola de Amsterdam.

spaarnplan1Croqui da quadra com o Het Schip. o 1 é a torre, 2 é o jardim interno, 3 é onde fica a escola infantil e 4 o posto do correio, hoje o museu da Escola de Amsterdam

imagem do website http://www.rogershepherd.com

A Lei Habitacional de 1901 estabeleceu condições de financiamento para a criação de associações cooperativadas para construir moradias. Essas coorporações foram responsáveis pela construção de um grande número de moradias na Holanda. Uma delas, a “Eigen Haard” (Nosso Lar) construir várias das construções habitacionais no Distrito Spaarndammerbuurt, oeste da área central de Amsterdam, ao longo do Rio IJ. Esta área foi construída entre 1915 e 1920 e inclui vários edifícios de Miche De Klerk, incluindo “Het Schip” (o navio).

het schip0A torre – foto de Maarten P Schipper

O Distrito de Spaarndammer consiste num tecido urbano de padrão irregular com edifícios blocos nas quadras entre os trilhos da principal linha de trem da cidade a oeste e as docas ao longo do rio. O Het Schip foi o terceiro edifício que De Klerk projetou no bairro. Uma estranha forma, com um perímetro triangular, o edifício define um pequeno jardim no interior da quadra. As moradias tem entradas a partir das ruas, com um desenho repetido de entradas e escadas, e tem sacadas voltadas para o jardim interno. Um posto de correio foi projetado na ponta de um dos edifícios, e constitui um espaço publico voltado para uma pequena praça pavimentada, onde hoje fica o museu. Uma arcada próxima ao correio leva a um páteo pavimentado que é a entrada de várias moradias, onde por sua vez existe uma pequena casa que é uma sala comunitária, que fica solta no interior do jardim no meio da quadra.

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A fachada para Hembruggrestraat – a torre é só um elemento ornamental, não tem função nem pode ser acessada

foto de Maarten P Schipper

A horizontalidade do edifício é fortemente marcada através das janelas e faixas de tijolos, e outros elementos que são repetidos, como os acessos a halls de entrada. No extremo oeste do bloco, o edifício é coroado com uma torre fronteando uma pequena praça pavimentada e organizando simetricamente o bloco de moradias em torno dela. No lado norte do bloco, ao longo da Oostzaanstraat, um escola pública ocupa dois pavimentos do edifício, e cria uma interrupção formal na fachada.

het schip2vista da fachada oeste – foto de Maarten P Schipper

Enquanto que de forma geral a organização do edifício se fez de forma angular, De Klerk quebra esses ângulos com a inclusão sequencial de entradas simétricas, janelas na fachada oeste, sacadas e outros elementos que são inseridos em ressalto. O efeito resultante, é um peculiar e vagamente expressionista edifício, uma forma “marítima” dada pela repetida ordem de elementos, pelos surpreendentes e clássicos detalhes, com qualidade orgãnica. A ordem básica que é repetida é um bloco de 5 pavimentos organizado ao redor de uma escada comum.

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vista da fachada sul – foto de Maarten P Schipper

As habitações da Escola de Amsterdam foram amplamente criticadas por serem muito luxuosas para um programa municipal de moradias populares. Mas, de fato, ainda que haja várias tipos de plantas dos apartamentos por causa de suas peculiares intersecções, e que hajam várias moradias com qualidades impares, como janelas redondas, sacadas, ou plantas não convencionais, na realidade as moradias são pequenos apartamentos de 2 ou 3 dormitórios, com pequenas salas, cozinha e um banheiro.

het schip5detalhes das janelas – foto de Wendy Lambus

O programa de revitalização dessas moradias começou em 1968, quando os edifícios em péssima situação foram derrubados e novos edifícios foram construídos. Durante aqueles anos muitas das moradias construídas pelos arquitetos da Escola de Amsterdam foram restaurados e hoje eles parecem estar em excelentes condições, e durante seus 75 anos de existência tem garantido moradia de qualidade a população de baixa renda.

A seguir mais fotos do Het Schip

het schip6foto de Onno Kaldenberg

het schip7foto de Tomás Petermann

het schip8foto de Maarten P Schipper

het schip22um hall de acesso aos apartamentos

foto de Maarten P Schipper

het schip9foto de Maarten P Schipper

het schip10foto de Maarten P Schipper

het schip11O parte à esquerda do bloco é a escola infantil

Foto de Harrie van De Putte

het schip12A agência de correios, hoje museu

Foto de Harrie van De Putte

het schip13A arcada que é entrada para o páteo de acesso a alguns apartamentos

foto de Onno Kaldenberg

het schip14o acesso ao Museu/Correio

Foto de Tov

het schip15detalhe do balcão

foto de Maarten P Schipper

het schip16foto de Maarten P Schipper

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foto de Maarten P Schipper

het schip23entrada dos apartamentos na fachada sul

foto de Maarten P Schipper

het schip18foto do bloco visto do jardim interno

foto de Maarten P Schipper

het schip19vista do páteo interno, ao fundo o salão comunitário

foto de Maarten P Schipper

het schip20vista a partir do páteo interno do edifício de 5 pavimentos

foto de Maarten P Schipper

het schip21o páteo interno

foto de Maarten P Schipper

4 pensamentos sobre “Sala de Leitura – A escola de Amsterdam e o Het Schip de Michel de Klerk

  1. Boa Tarde queria saber se você tem mais material sobre Berlage, pois vou fazer um seminário sobre ele de THAU III e é justamente sobre esse assunto, ou talvez livros para me indicar.
    desde já agradeço.

    Guilherme Amorim – Estudante de Arquitetura.

  2. Obrigada Claudia. Você como arquiteta urbanista e blogueira, além de professora, sabe bem como é difícil fazer umas matérias um pouco mais elaboradas. Obrigada pelo incentivo e por ler tão frequentemente meu blog. Abraços.

  3. Ola Cecilia! muito bom apanhado da arquitetura holandesa! Sei o quanto nos dá trabalho montar essas postagens! mas é sempre muito bom quando vemos o resultado! parabéns pela iniciativa!🙂

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